Se você trabalha com tráfego orgânico, já decorou o ritual: escolher palavras-chave, ver a posição no Google e ajustar o conteúdo. Só que os assistentes de IA — ChatGPT, Gemini, Perplexity e companhia — jogam outro esporte. Eles geram respostas únicas a cada rodada, mudam a ordem dos citados e, para piorar, não mostram volume de pesquisa de prompt algum.
Isso significa que “rankear” em IA do mesmo jeito que rankeamos no Google é, tecnicamente, impossível. Mesmo assim, marcas precisam saber se aparecem nas conversas que influenciam compras ou reputação. A boa notícia é que há um caminho: trocar o foco de posições fixas para probabilidade de menção, analisando milhares de prompts de forma agregada. É nessa lógica que a Ahrefs apresentou o Brand Radar, um banco com cerca de 100 milhões de perguntas e respostas geradas por IA.
Por que as regras do SEO não se aplicam à IA
No rastreamento clássico de SEO, três pilares sustentam a estratégia:
1. Resultados determinísticos: a mesma busca exibe praticamente o mesmo SERP para todo mundo.
2. Posições fixas: é possível medir se você está em #1 ou #20.
3. Volumes conhecidos: dados de busca mostram a demanda por cada termo.
Os modelos de IA quebram os três fatores:
- Respostas probabilísticas — cada execução pode citar marcas diferentes.
- Sem posição — menções aparecem em texto corrido, não em ranking numerado.
- Demanda oculta — empresas de IA não divulgam logs de prompt.
Para complicar, versões internas do mesmo modelo podem discordar entre si, e personalização por contexto ou histórico distorce ainda mais a saída.
Da métrica individual ao panorama de visibilidade
Diante desse cenário, a pergunta relevante deixa de ser “Apareço para este prompt?” e passa a ser “Com que frequência a IA associa minha marca a este tema entre milhares de variações?”. O método adotado pelo Brand Radar segue essa premissa:
- Usa prompts sintéticos derivados de dados reais (People Also Ask, volumes do banco de palavras-chave da Ahrefs) para refletir interesse do público.
- Agrupa as respostas e calcula a porcentagem de vezes que uma marca é citada, suavizando a variação natural.
- Permite comparar essa “Share of Voice em IA” com concorrentes ao longo do tempo.
Com amostragens pequenas (50–100 prompts) a margem de erro é grande. Por isso, a ferramenta opera em escala de milhões, modelo similar a pesquisas de opinião: não importa o voto individual, mas a tendência estatisticamente robusta.
O que os primeiros testes revelam
Alguns cases citados pela Ahrefs ilustram o valor do monitoramento:
Labubu, o boneco viral: vídeos de unboxing explodiram em abril no TikTok. Em maio, buscas no Google aumentaram; em julho, menções na web superaram Funko Pop; apenas em agosto a marca conseguiu ultrapassar concorrentes em respostas do ChatGPT e nos AI Overviews do Google. Foram quatro meses até a tendência entrar no radar da IA.
Pipedrive: a CRM aparece em 92,8% dos prompts sobre “CRM para startups”, mas sua presença cai para 3,6% quando o universo se amplia para todas as buscas de CRM (~128 mil prompts), revelando nichos dominados e lacunas de mercado.
Nike vs. Adidas: se uma comparação mostrar 60% de citações para Nike e 40% para Adidas, a diferença ilumina onde cada uma precisa reforçar conteúdo, PR ou parcerias.
Mensurar o Intangível: por que entender sua fatia na IA pode redefinir sua estratégia de conteúdo
A presença em respostas de IA já interfere no funil de decisão. Dados internos da Ahrefs apontam que, quando o AI Overview surge no Google, o clique nos links orgânicos tradicionais cai cerca de um terço. Ou seja, não ser citado na resposta gerada significa ficar invisível enquanto o usuário ainda formula a escolha.
Ao trocar rankings fixos por probabilidade de menção, profissionais de marketing ganham dois faróis:
- Visão macro: a evolução da marca em tópicos amplos indica se os esforços de conteúdo, RP e produto estão ressoando nas máquinas de linguagem.
- Visão micro: prompts críticos — comparações diretas, consultas de fundo de funil ou dúvidas sobre a própria marca — seguem sendo monitorados individualmente para evitar distorções ou omissões graves.
Essa dupla abordagem não substitui o SEO tradicional, mas adiciona uma camada necessária em um cenário onde respostas conversacionais têm peso decisivo. Ignorar essa métrica é abrir espaço para que concorrentes construam autoridade algorítmica primeiro. Entender — e quantificar — como a IA fala de você é, portanto, menos vaidade e mais requisito de sobrevivência no novo ciclo de descoberta.
Em síntese, rastrear IA não é medir posições; é avaliar relevância estatística. Quem ajustar a bússola agora estará melhor posicionado quando os assistentes se tornarem a primeira porta de entrada para informações, produtos e serviços.