Imagine pedir a uma inteligência artificial que gere uma trilha sonora exclusiva para o seu próximo vídeo no YouTube ou para um podcast recém-gravado — e receber o arquivo pronto em poucos segundos. Segundo uma reportagem do site The Information, é justamente esse tipo de experiência que a OpenAI quer viabilizar com um novo modelo de geração musical. A iniciativa, ainda mantida em sigilo pela empresa, chega em um momento em que criadores de conteúdo, profissionais de marketing e até plataformas de streaming buscam alternativas para reduzir custos com licenciamento e acelerar processos de produção.
O interesse não é casual: música livre de royalties e produzida sob demanda poderia virar um diferencial competitivo para blogs, sites em WordPress e campanhas veiculadas via Google AdSense ou redes de afiliados da Amazon. Ao mesmo tempo, a novidade ameaça mexer na complexa engrenagem da indústria musical, que já enfrenta processos envolvendo outras ferramentas de IA.
OpenAI prepara retorno à música com geração a partir de texto e áudio
De acordo com fontes citadas pelo The Information, o projeto permitiria criar faixas completas tanto a partir de prompts de texto (“uma balada lo-fi com saxofone suave”) quanto de trechos de áudio enviados pelo usuário. A OpenAI já havia flertado com algo parecido antes de 2022, com modelos como MuseNet e Jukebox, mas interrompeu o foco para lançar o ChatGPT. O novo sistema marcaria, portanto, uma retomada oficial ao universo sonoro.
Parceria com a Juilliard: estudantes como fornecedores de dados
Para treinar a IA, a companhia estaria colaborando com alunos da Juilliard School, renomada faculdade de música de Nova York. O envolvimento de estudantes sugere um cuidado maior em coletar material autorizado, evitando parte das críticas que outras empresas do setor já enfrentaram por usar obras protegidas sem permissão.
Integração incerta e cronograma mantido em segredo
Não há informação concreta sobre o lançamento ou sobre a forma de distribuição. A ferramenta pode surgir como um recurso interno do ChatGPT, integrar o Sora — gerador de vídeos da empresa — ou nascer como plataforma independente. A OpenAI também não comentou oficialmente o assunto.
Imagem: JarTee
Direitos autorais continuam na berlinda
Modelos de IA focados em música, como os desenvolvidos pelo Google e por startups especializadas, já enfrentam ações judiciais por suposto uso irregular de catálogos comerciais. No campo da imagem, a própria OpenAI foi pressionada por atores como Bryan Cranston após usuários gerarem deepfakes usando o rosto e a voz do artista. Essas disputas mostram que a linha entre inovação e infração permanece tênue.
Streaming, Criadores e Marcas: quem ganha (ou perde) com a IA que compõe sozinha?
Se a nova ferramenta vingar, músicos independentes poderão ver na IA tanto um concorrente quanto um parceiro: ela pode agilizar demos e trilhas-tema, mas também inundar o mercado com produções genéricas. Para produtores de conteúdo digital, o benefício é imediato — trilhas sonoras originais, sem a burocracia do licenciamento tradicional. Já plataformas como Spotify e YouTube terão de repensar políticas de monetização e detecção de conteúdo, para não remunerar indevidamente faixas geradas por máquinas ou, ao contrário, penalizar criações legítimas.
O ponto-chave é que a OpenAI tenta construir um modelo de negócios sustentável antes que a lei se consolide. Caso consiga acordos claros de uso de material — começando pela colaboração com a Juilliard — a empresa pode criar precedente favorável à IA musical. Caso falhe, arrisca repetir a trama judicial que hoje ronda as imagens geradas por IA. A balança entre inovação e direitos autorais vai determinar se a promessa de “música sob demanda” será um novo padrão ou apenas mais um ruído no já disputado mercado criativo.