Imagine abrir o LinkedIn durante o expediente e encontrar uma mensagem que oferece até R$ 5.500 por uma simples conversa de uma hora. O único “detalhe” é que o interlocutor quer saber tudo sobre o funcionamento da empresa em que você trabalha, do número de usuários ao custo de cada pedido de delivery. Essa é a situação relatada por funcionários do iFood e do 99Food, duas das maiores plataformas de entrega em atuação no Brasil.
Segundo apuração do portal UOL, dezenas de consultorias internacionais — a maioria com sede na China, mas também no Japão, Estados Unidos e Brasil — estariam tentando comprar informações estratégicas dos apps. A notícia levanta um ponto crítico para quem vive de tecnologia, cria conteúdo sobre o tema ou monetiza sites e blogs: dados corporativos viraram moeda valiosa em uma disputa feroz pelo mercado de delivery.
Como funcionava a abordagem aos funcionários
Mensagens privadas ofereciam entre US$ 250 e US$ 400 (aproximadamente R$ 1.200 a R$ 2.000) por uma reunião em vídeo de 60 minutos. Em casos extremos, o valor prometido chegava a R$ 5.500.
O objetivo era obter números internos como total de usuários, participação de mercado, faturamento, custo por pedido e métricas de desempenho de frota e logística. Até entregadores foram procurados: uma simples foto de rotas percorridas ao longo do dia rendia R$ 5.
A reportagem teve acesso a pelo menos 170 mensagens enviadas por mais de 30 consultorias diferentes a colaboradores do iFood. Funcionários do 99Food também confirmaram o recebimento de ofertas semelhantes.
Por que as plataformas de delivery viraram alvo
O timing não é coincidência. O iFood lidera o segmento no Brasil, seguido pelo Rappi. Porém, o cenário mudou com a entrada de duas gigantes chinesas: a própria 99Food, controlada pela DiDi Global, e a recém-chegada Keeta, da Meituan. Em um mercado de margens apertadas, cada ponto percentual de participação vale milhões — e cada fragmento de informação pode oferecer vantagem competitiva.
A resposta das empresas e o que diz a legislação
Em nota oficial, o iFood classificou o episódio como “espionagem corporativa”, disse estar sofrendo um “ataque coordenado” e enviou notificações extrajudiciais para que as consultorias cessem o assédio a seus funcionários. O 99Food confirmou que seus colaboradores receberam contatos, mas negou qualquer envolvimento.
Imagem: fresnel
No Brasil, a Lei de Propriedade Intelectual enquadra esse tipo de prática como crime de concorrência desleal. O Código Penal também prevê pena de três meses a um ano — ou multa — para violação de segredo profissional. Quem paga e quem fornece a informação podem ser responsabilizados.
Guerra de mercado em bits e bytes: o delivery brasileiro entrou na era da espionagem
O episódio ilumina um fenômeno maior: dados operacionais passaram a ser tão ou mais valiosos que capital financeiro em setores de alta competitividade. Para startups de delivery — que dependem de logística em tempo real e margens centesimais — conhecer o custo do rival por quilômetro pode definir onde investir, cortar ou expandir.
Se confirmada a espionagem, o caso sinaliza que a guerra de comida não se limita mais a cupons e taxas de entrega; ela migrou para estratégias dignas de “inteligência” corporativa. No curto prazo, empresas devem reforçar políticas internas de confidencialidade e treinar funcionários para reconhecer abordagens suspeitas. No médio, podemos ver mais processos judiciais e, possivelmente, regulamentações específicas para proteger dados competitivos.
Para criadores de conteúdo, profissionais de marketing digital e pequenos negócios, a lição é clara: a economia dos dados não poupa nenhum nicho. Entender como suas próprias métricas podem ser usadas — e protegidas — tornou-se parte essencial da estratégia de mercado.