Imagine investir tempo em SEO, conquistar um link em resposta de IA e, quando o usuário clica, ele dá de cara com um 404. Se você é publisher, dono de blog em WordPress ou profissional de marketing acostumado a otimizar cada visita, esse cenário dói no bolso e na reputação. Um levantamento inédito da Ahrefs colocou seis assistentes de IA sob a lupa — entre eles ChatGPT, Gemini e Copilot — para medir exatamente com que frequência essas ferramentas indicam páginas inexistentes.
Foram avaliados 16 milhões de endereços, comparando-se as taxas de erro das IAs com o “padrão ouro” da web: o Google. O resultado assusta quem depende de tráfego qualificado: as IAs enviam usuários para páginas 404, em média, 2,87 vezes mais do que a busca tradicional. ChatGPT é o campeão negativo, mas não está sozinho nessa.
Metodologia: dois testes complementares para medir cliques e citações
A equipe da Ahrefs combinou duas fontes de dados:
Teste 1 – Web Analytics: dados anônimos de sites que usam a ferramenta gratuita da empresa. O objetivo era mapear URLs efetivamente clicadas após aparecerem em respostas de IA. A página era considerada possível 404 quando o título incluía “404” ou “not found”.
Teste 2 – Brand Radar: um grande banco de prompts e respostas de IA. Aqui, o foco foi listar cada URL citada, mesmo que ninguém tivesse clicado. Para 65 % desses links, havia status HTTP recente no índice do crawler da Ahrefs.
Teste 1: cliques reais mostram ChatGPT no topo dos equívocos
Entre os URLs que recebiam tráfego de IA, a taxa de páginas provavelmente inexistentes ficou assim:
• ChatGPT — 1,01 %
• Claude — 0,58 %
• Copilot — 0,34 %
• Perplexity — 0,31 %
• Gemini — 0,21 %
• Mistral — 0,12 %
Para referência, cliques vindos do Google apresentaram uma taxa de apenas 0,15 %. Ou seja, em visitas concretas, os assistentes analisados erram quase três vezes mais que a busca orgânica.
Teste 2: olhando só para links citados, o problema aumenta
Quando a análise se ampliou para todos os links mencionados (clicados ou não), as porcentagens subiram:
• ChatGPT — 2,38 %
• Perplexity — 0,87 %
• Gemini — 0,86 %
• Copilot — 0,54 %
Neste cenário, o benchmark do Google foi de 0,84 % (proporção de páginas 404 entre as 400 mil SERPs avaliadas). A proximidade entre Perplexity/Gemini e o número do Google sugere que o uso do índice de busca da gigante reduz, mas não elimina, as alucinações.
Imagem: Ryan Law
Por que as IAs inventam URLs?
O estudo aponta dois motivos principais:
1. Conteúdo desatualizado – O modelo lembra de um link legítimo que já foi removido ou não recebeu redirecionamento 301. A informação permanece “gravada” na memória da IA.
2. Padrões deduzidos – O sistema “inventa” um endereço que parece coerente (“/blog/internal-links/”, por exemplo) sem verificar sua existência real. Se esse link fictício aparece em textos gerados por IA e é rastreado por buscadores, passa a constar em bancos de dados mesmo sem página correspondente.
Impacto no tráfego: vale a pena se preocupar?
Hoje, visitas vindas de assistentes de IA representam apenas 0,25 % do tráfego médio de um site, contra 39,35 % originados do Google convencional. Considerando que 1,01 % dos cliques do ChatGPT caem em 404, estamos falando de uma fração muito pequena do volume total de usuários. Ainda assim, erros frequentes geram frustração e podem afetar métricas de engajamento, além de desperdiçar a minúscula fatia de tráfego que essas ferramentas já entregam.
Além do Hype: o que a taxa de 404 dos assistentes de IA realmente significa para sites e criadores?
No curto prazo, a conclusão pragmática é simples: monitorar e corrigir links fantasma tem valor, mas não vai mover a agulha do tráfego. Ao mesmo tempo, entender o fenômeno coloca luz em tendências maiores:
• Confiabilidade da IA como source of truth – Se os grandes modelos de linguagem erram mais do que mecanismos de busca, é um alerta sobre limites de treinamento e de atualização de dados. Isso pressiona fornecedores a integrar checagem em tempo real ou depender mais fortemente de índices consolidados.
• UX e SEO convergem – Mesmo que poucas visitas cheguem via IA hoje, oferecer redirecionamentos inteligentes ou uma página 404 útil evita perda de confiança do usuário. É um ajuste simples que reforça a experiência e pode render backlinks ou citações corretas no futuro.
• Pequenos sinais do futuro da busca – O estudo sugere que modelos que se apoiam diretamente no índice do Google (caso de Gemini e, possivelmente, Perplexity) reproduzem quase o mesmo nível de erro da fonte. Já sistemas “fechados”, como o ChatGPT atual, carregam inconsistências próprias. Conforme a IA se converte em front-end da busca, essa diferença de qualidade pode definir quem domina a atenção — e o tráfego — dos usuários.
Em suma, a pesquisa dimensiona um problema real, mas ainda periférico. Ficar de olho nas alucinações de links é bom para manter a casa arrumada e aprender sobre o comportamento das IAs, mas não substitui o trabalho essencial de conquistar páginas indexadas, conteúdo de qualidade e backlinks sólidos — as rotas que, até segunda ordem, continuam trazendo a maior parte das visitas.