Se você tentou comprar algo no Mercado Livre, conversar com a Alexa ou simplesmente entrar no Roblox na manhã desta segunda-feira (20) e não conseguiu, não foi azar individual. Uma interrupção na Amazon Web Services (AWS) — a espinha dorsal de boa parte da internet — tirou do ar serviços populares em várias partes do mundo. Para quem vive de e-commerce, cria conteúdo online ou gerencia campanhas de marketing, cada minuto offline pode significar dinheiro e audiência que não voltam mais.
O problema começou por volta das 5h40 (horário de Brasília) e rapidamente escalou em sites de monitoramento como o DownDetector. A própria AWS confirmou que o incidente partiu de um de seus data centers na Virgínia do Norte (região US-EAST-1), considerado crítico porque hospeda serviços-chave da plataforma. A seguir, detalhamos o que houve, quais aplicações foram afetadas e como a situação evolui.
O que falhou na AWS e por quê
Segundo atualização oficial da Amazon, a raiz do transtorno foi um problema operacional envolvendo o DNS de acesso à API do DynamoDB, banco de dados NoSQL muito usado por aplicativos de alto tráfego. Quando o serviço de nomes (DNS) falha, as aplicações não conseguem localizar os endpoints do banco de dados, travando operações de leitura e escrita.
Isso explica por que a pane foi sentida de formas diferentes: algumas plataformas carregavam parcialmente, mas travavam na hora de buscar ou gravar informações. Às 6h27, a AWS informou estar vendo “sinais significativos de recuperação”, mas ainda lidava com um backlog de requisições pendentes.
Quais serviços sentiram o impacto
Entre os nomes citados por usuários e confirmados em testes práticos, estão:
- Mercado Livre: aplicativo abre, mas a busca de produtos falha e exibe aviso de erro;
- Alexa: dispositivos Echo acendem e processam comandos, porém não retornam resposta verbal;
- Roblox: jogadores relatam desconexões e impossibilidade de entrar em servidores;
- Prime Video: streaming com travamentos e quedas de qualidade;
- Canva: lentidão geral e falhas ao carregar recursos de design;
- Wellhub (ex-Gympass): instabilidade no app de bem-estar;
- Duolingo: lições funcionam, mas rankings de ligas não carregam.
A lista é maior, mas esses casos ilustram o alcance do incidente: de varejo online a assistentes de voz, passando por educação, entretenimento e produtividade.
Status da recuperação até agora
Até o momento da última atualização pública, a AWS afirma que “a maioria das solicitações já deve estar sendo atendida”, mas monitora a retomada completa. O histórico da empresa indica que a normalização total pode levar horas, sobretudo para serviços que precisam reprocessar grandes filas de dados acumulados.
Imagem: Internet
Quando o coração da nuvem espirra, todos pegam resfriado: lições dessa queda para negócios digitais
A intermitência de hoje reforça um ponto que costuma ficar invisível: a dependência concentrada em uma única região — ou até em um único provedor — converte falhas isoladas em problemas sistêmicos. O data center US-EAST-1 é tão central dentro da AWS que virou, na prática, um “ponto único de ansiedade” para quem hospeda aplicações globalmente.
Para lojas virtuais e criadores que monetizam via anúncios ou afiliados, o impacto não se resume ao período offline. Algoritmos de busca e recomendação podem rebaixar páginas lentas ou indisponíveis, prejudicando tráfego orgânico mesmo depois que tudo volta ao normal. No e-commerce, carrinhos abandonados durante a pane dificilmente se recuperarão.
Do lado técnico, a saída passa por multi-region e, quando possível, multi-cloud, embora isso aumente custo e complexidade. Adotar caches locais e filas de mensagens que mantenham operações essenciais funcionando sem acesso imediato ao banco de dados também reduz o risco de paradas totais.
Em outras palavras, a pane da manhã serve como lembrete contundente: na economia digital, resiliência não é luxo, é requisito mínimo. Negligenciar arquitetura redundante sai mais caro — em receita, reputação e SEO — do que investir preventivamente. A nuvem segue sendo poderosa, mas não mágica; planejamento de contingência é o único antídoto quando até gigantes como a AWS tropeçam.