Você já saiu do supermercado com uma garrafa de vinho que não planejava comprar ou ficou mais tempo do que o normal numa cafeteria aparentemente comum? Talvez a culpa não seja da vitrine, mas da trilha sonora ambiente. Estudos que começaram ainda nos anos 1990 mostram que a música não só embala nossa rotina: ela altera a velocidade com que caminhamos pelos corredores, muda nossa percepção de produtos e até decide qual prato escolhemos no cardápio. Para quem vive de tráfego, anúncios ou programas de afiliados, entender esse “fator invisível” pode fazer toda a diferença.
Neste artigo, reunimos as pesquisas mais citadas sobre o tema — de vinhos franceses versus alemães a burritos do Chipotle — e destrinchamos o que elas apontam sobre comportamento de consumo. Ao final, exploramos o que tudo isso significa para profissionais de marketing, proprietários de e-commerce e criadores de conteúdo que querem aproveitar (ou se proteger de) esse gatilho sonoro.
O experimento dos vinhos: acordeon francês x música bávara
Em 1997, o psicólogo Dr. Adrian North colocou à prova a influência musical nas escolhas de compra. Ele abasteceu um supermercado inglês com quatro tipos de vinhos franceses e quatro alemães, todos equivalentes em preço, doçura e teor alcoólico. Durante duas semanas, a loja alternou diariamente entre canções de acordeon francês e músicas tradicionais alemãs.
O resultado? Quando tocava acordeon, 83% dos consumidores optavam por vinho francês; com o repertório alemão, 65% levavam garrafas germânicas. Curiosamente, entrevistados na saída afirmavam que a trilha sonora não influenciara a decisão — evidência de que o efeito acontece abaixo do radar consciente.
Repetindo o teste: de vinhos para cafeterias universitárias
Quase vinte anos depois, pesquisadores da Montclair State University trouxeram o tema de volta. Em 2017, eles tocaram músicas italianas em um refeitório universitário e viram aumentar as vendas de frango à parmegiana. Ao trocar para flamenco espanhol, as vendas de paella subiram. A amostra confirma que a associação cultura-produto continua atuante mesmo em ambientes modernos e públicos mais jovens.
Anedotas cotidianas reforçam o achado. Turistas relatam parar em padarias parisienses atraídos não só pelo aroma de croissants, mas também pelo som de acordeões que evoca o imaginário de cafés franceses. Em termos práticos, a música pode funcionar como um “atalho mental” que liga ambiente, expectativa e decisão de compra.
Ritmo lento ou rápido: quanto custa cada batida por minuto
Outro vetor importante é o tempo da música. No estudo clássico de Ronald E. Milliman, publicado como “Using Background Music to Affect the Behavior of Supermarket Shoppers”, nove semanas de testes mostraram que clientes gastavam 38% mais quando a trilha tinha cerca de 60 batidas por minuto (BPM) — ritmo típico de baladas — do que quando a loja tocava músicas de 108 BPM.
A explicação: canções lentas fazem os consumidores desacelerar o passo, aumentando o tempo em loja e, consequentemente, o ticket médio. No polo oposto, redes como o Chipotle declararam usar playlists aceleradas nos horários de pico para agilizar a fila e manter o giro de clientes. O próprio DJ interno da marca disse: “Almoço e jantar recebem músicas com BPM mais alto porque precisamos manter a fila andando”. Nos períodos tranquilos, o restaurante baixa o ritmo para estimular permanência e consumo adicional.
Imagem: Internet
Playlists como estratégia invisível: o que isso muda para quem vende (e para quem compra)
Para varejistas físicos, o insight é tão poderoso quanto barato: ajustar o repertório sonoro pode aumentar vendas ou rotatividade sem alterar layout, preços ou staff. Em tempos de margens apertadas, cada batida extra por minuto pode significar caixa adicional ou filas menores, a depender do objetivo.
Já profissionais de marketing digital e criadores de conteúdo podem traduzir o princípio da “assinatura sonora” para o online. Vídeos, podcasts e lives ganham mais poder de persuasão quando a música selecionada reforça a mensagem principal — seja para remeter a um estilo de vida (lo-fi para estudo, rock para adrenalina) ou para modular o ritmo de consumo do conteúdo.
Há, porém, uma implicação ética: se o som influencia escolhas sem percepção consciente, onde fica o limite entre experiência e manipulação? Da mesma forma que reguladores discutem rótulos de alimentos e publicidade infantil, é possível que normas futuras exijam transparência sobre “ambientes sensoriais” em lojas ou plataformas virtuais.
Por ora, consumidores atentos podem fazer o exercício proposto pelo próprio Dr. North: da próxima vez que você se sentir atraído por um produto ou permanecer mais tempo em um local, preste atenção à trilha de fundo. Entender esse detalhe torna a decisão mais informada — e dá uma aula prática de como pequenos estímulos moldam grandes mercados.
E assim a música, muitas vezes relegada a plano de fundo, prova ser protagonista silenciosa na dança entre marcas e consumidores.