Quando duas das empresas mais influentes do universo WordPress se enfrentam nos tribunais, todo mundo que depende da plataforma – de blogueiros a agências de marketing – precisa prestar atenção. Foi exatamente isso que aconteceu na mais recente decisão do processo WP Engine versus Automattic (companhia do cofundador do WordPress, Matt Mullenweg). O juiz analisou cada acusação, cortou algumas, manteve a maioria e ainda deu margem para ajustes em outras.
O resultado não é apenas um capítulo jurídico: ele pode balançar a forma como plugins são distribuídos, como marcas são usadas e até como negócios de hospedagem interagem com a comunidade open source. A seguir, destrinchamos o que segue no tabuleiro, o que ficou pelo caminho e por que tudo isso importa para quem vive – ou lucra – com WordPress.
O que sobreviveu: nove acusações prontas para julgamento
O magistrado decidiu que nove alegações, além de uma de forma parcial, têm base suficiente para avançar. São elas:
- Interferência intencional em contratos (Count 1) e em relações econômicas futuras (Count 2): WP Engine pode tentar provar que Automattic prejudicou seus acordos e oportunidades de negócio, abrindo caminho para possíveis indenizações.
- CFAA – acesso não autorizado (Count 19): acusa Automattic de trocar secretamente o plugin ACF, mantido pela WP Engine, pela versão SCF, da própria Automattic, em sites de clientes.
- Concorrência desleal (Count 5): engloba a suposta substituição de plugin sem permissão e conflitos de marca, enquadrados na lei californiana.
- Difamação (Count 9) e libelo comercial (Count 10): afirmações no WordPress.org de que a WP Engine oferece um “clone barato” da plataforma.
- Calúnia oral (Count 11): declarações de Mullenweg, em evento e entrevista ao vivo, chamando a empresa de “parasita” e “nociva” à comunidade open source.
- Lanham Act – concorrência desleal (Count 17) e publicidade enganosa (Count 18): tentativas de Automattic de encerrar essas acusações foram negadas.
- Promissória estoppel (Count 6) – parcialmente: a corte aceitou a parte que envolve promessas claras (como hospedagem gratuita de plugins), mas considerou vagas frases genéricas do tipo “todos são bem-vindos”.
O que foi descartado ou precisa ser reescrito
Nem todas as alegações resistiram ao crivo do tribunal:
- Antitruste e monopólio (Sherman e Cartwright Acts): rejeitadas por falta de definição de mercado relevante, mas WP Engine pode reformular.
- CFAA – extorsão (Count 3): acusação de ameaça para bloquear acesso ao WordPress.org e exigir licenças foi considerada insuficiente; pode ser emendada.
- Tentativa de extorsão – Código Penal da Califórnia (Count 4): totalmente descartada; somente promotores públicos podem usar esse artigo.
- Mau uso de marca registrada (Count 16): eliminado porque “trademark misuse” só vale como defesa, não como processo autônomo.
Versões opostas sobre a mesma decisão
Logo após a sentença, as narrativas divergiram. Um porta-voz da WP Engine celebrou o avanço da maioria das acusações e disse confiar na vitória em julgamento. Já Mullenweg publicou em seu blog que “antitruste, monopólio e extorsão foram derrubados”, sinalizando uma leitura mais favorável à Automattic. Tecnicamente ele não mentiu, mas omitiu que várias alegações graves – incluindo interferência contratual, difamação e acesso não autorizado – continuam firmes no processo.
Imagem: Internet
WordPress em Xeque: por que essa disputa judicial afeta plugins, hospedagem e o seu bolso?
À primeira vista, pode parecer apenas briga de gigantes, mas as consequências podem respingar em qualquer pessoa que usa, desenvolve ou monetiza sites em WordPress:
- Governança do repositório de plugins: a acusação de troca silenciosa de extensões (ACF por SCF) toca no ponto central de confiança. Se a corte concluir que houve invasão ou manipulação, políticas de publicação e atualização podem ficar muito mais rígidas, alterando o fluxo de quem mantém plugins gratuitos e premium.
- Mercado de hospedagem gerenciada: WP Engine e Automattic competem nesse segmento. Uma condenação por interferência contratual criaria precedentes sobre até onde um fornecedor core da plataforma pode agir contra parceiros comerciais que personalizam WordPress para clientes.
- Liberdade de crítica x difamação: as falas de Mullenweg serão examinadas judicialmente. Dependendo do resultado, líderes de projetos open source podem rever o tom ao criticar forks, distribuições ou serviços pagos baseados no software.
- Possível efeito cascata em monetização: se práticas consideradas competitivas hoje forem rotuladas como desleais ou enganosas, programas de afiliados, redes de anúncios e provedores de SaaS precisarão ajustar termos de uso, impactando criadores de conteúdo que dependem dessas receitas.
- Sinal amarelo para antitruste: embora o juiz tenha pedido ajustes na petição, o simples fato de discutir monopólio dentro do ecossistema WordPress liga o alerta para autoridade regulatória. Caso a alegação volte à mesa, pode acelerar debates sobre governança de plataformas open source com forte liderança corporativa.
Em resumo, o processo ainda está longe do fim, mas a decisão de manter nove acusações significativas mostra que a disputa não é somente retórica. Ela coloca em evidência questões de controle, competição e ética que sustentam o WordPress – e, por extensão, boa parte da web.