Quando a Electronic Arts anunciou, no mês passado, um acordo de US$ 55 bilhões para ser comprada por um consórcio puxado pelo Fundo de Investimento Público da Arábia Saudita (PIF), muita gente só enxergou o tamanho da cifra. Mas, nos bastidores de Washington, o número que mais preocupa não é o valor, e sim 100% de controle que a editora de jogos passaria a ter sob influência estrangeira. Para quem vive de criar, distribuir ou monetizar conteúdo digital — seja em blogs, no YouTube ou em plataformas de afiliados — compreender o desdobramento dessa história ajuda a mapear onde estão os fios de poder que moldam a cultura pop (e o dinheiro que gira em torno dela).
Dois senadores norte-americanos já colocaram a transação na lupa, alegando riscos de segurança nacional, censura e uso político dos dados de milhões de jogadores. A preocupação vai além do PlayStation ou do PC: trata-se de quem controla narrativas que, cada vez mais, extrapolam o entretenimento e se desdobram em e-sports, publicidade in-game e ecossistemas de criadores. A seguir, destrinchamos os fatos e explicamos por que a compra da EA virou disputa geopolítica.
O que exatamente foi negociado — e com quem
• Valor do acordo: aproximadamente US$ 55 bilhões, uma das maiores cifras já vistas no setor de games.
• Participantes: o PIF lidera o consórcio, que ainda reúne a gestora Silver Lake e a Affinity Partners, firma de investimentos fundada por Jared Kushner, genro do ex-presidente Donald Trump.
• Escopo: aquisição de 100% das ações da Electronic Arts, dona de franquias como FIFA, Madden, The Sims e Battlefield.
O PIF vem diversificando seu portfólio para além do petróleo e já investiu em clubes de futebol, e-sports e estúdios menores. Para analistas de M&A, o lance bilionário pela EA indica a intenção de acelerar a presença saudita na “economia da atenção”.
A reação imediata do Congresso dos EUA
• Senadores envolvidos: Richard Blumenthal e Elizabeth Warren.
• Documento enviado: carta ao Secretário do Tesouro, Scott Bessent, exigindo que o Comitê de Investimento Estrangeiro nos Estados Unidos (CFIUS) faça uma investigação rigorosa.
• Principais temores: manipulação cultural, coleta de dados sensíveis e poder de veto narrativo dentro dos jogos.
Os parlamentares afirmam que o PIF aceitou pagar “acima do preço de mercado”, o que sugeriria uma motivação estratégica, não meramente financeira. A participação da Affinity Partners, fortemente capitalizada por recursos sauditas, também levanta suspeitas de favorecimento político, dada a ligação direta com Kushner.
As cinco respostas que a EA terá de fornecer
Blumenthal e Warren enviaram uma segunda carta, desta vez ao CEO Andrew Wilson, com cinco perguntas centrais:
1. Proteção de dados: como impedir o acesso do governo saudita às informações dos usuários?
2. Exigências governamentais: qual será o protocolo se Riade solicitar dados ou censura?
3. Uso de IA: que salvaguardas bloqueiam o emprego de algoritmos da EA para fins políticos?
4. Integridade narrativa: quem garante que futuras histórias não virem propaganda?
5. Agentes estrangeiros: haverá funcionários registrados sob a Lei de Registro de Agentes Estrangeiros (FARA)?
Em nota, a EA sinalizou que o conselho já aprovou a venda e que o fechamento deve ocorrer até junho de 2026. Andrew Wilson permanecerá no comando e a sede continuará na Califórnia.
Imagem: Internet
Do joystick à geopolítica: por que esse negócio mexe com todo o ecossistema digital
Ao contrário de outras aquisições de estúdios, esta coloca um fundo soberano — portanto, diretamente ligado a um governo — no controle de um dos maiores agentes culturais do Ocidente. Isso abre um precedente inquietante para várias frentes:
1. Soberania de dados: jogos modernos coletam telemetria, hábitos de consumo e até voz dos usuários. Se o controlador final for um Estado estrangeiro, cresce o risco de intercâmbio de informações estratégicas.
2. Narrativa cultural: franquias como Battlefield alcançam dezenas de milhões de jogadores e influenciam percepções sobre guerra, política e valores sociais. A possibilidade de script do enredo ser afinado a interesses externos preocupa reguladores.
3. Publicidade e monetização: a EA é parceira de big players de anúncios in-game. Mudanças de diretriz podem afetar CPMs, formatos publicitários e até políticas de conteúdos patrocinados que irrigam blogs, canais e sites especializados.
4. E-sports e licenciamento: competições de FIFA e Apex Legends movimentam patrocínios globais. O novo controlador pode realocar ou regrar eventos para territórios alinhados a sua estratégia de soft power, alterando rotas de investimentos.
5. Precedente regulatório: o CFIUS nunca bloqueou uma aquisição de game publisher em larga escala. A decisão pode criar jurisprudência para futuros deals envolvendo fundos estatais — chineses, árabes ou europeus.
No curto prazo, pouco muda para quem apenas joga. Mas, para desenvolvedores independentes, afiliados e profissionais de marketing, o caso define linhas de defesa sobre quem dita regras no mercado de atenção digital. Se Washington endurecer, outras transações encontrarão barreiras; se passar ilesa, abre-se a temporada de compras estatais em tecnologia de consumo.