Se você já hesitou antes de pedir um carro à noite ou em trajetos mais longos, a novidade da Uber fala diretamente com essa preocupação. A plataforma iniciou um programa piloto que permite às passageiras escolherem viajar apenas com motoristas mulheres em sete cidades brasileiras. A iniciativa tenta responder a uma demanda antiga de segurança e conforto, especialmente de quem depende do app no dia a dia, mas também de criadoras de conteúdo que se deslocam com equipamentos caros ou profissionais de marketing que precisam chegar pontualmente a eventos.
Além de minimizar riscos percebidos, o teste traz outro ingrediente estratégico: medir o potencial de segmentar ofertas de mobilidade para públicos específicos. Com isso, a Uber se posiciona num terreno que pode influenciar futuras políticas de inclusão e, de quebra, oferece um diferencial competitivo num mercado em que 99, Lady Driver e outros players buscam atrair (e reter) motoristas e passageiras.
Como o piloto foi estruturado e onde está disponível
O programa começou em 28 de outubro e envolve sete cidades: Piracicaba (SP), Uberlândia (MG), Curitiba (PR), Campinas (SP), São José dos Campos (SP), Ribeirão Preto (SP) e Campo Grande (MS). A empresa quer observar realidades distintas – de capitais regionais a municípios com forte presença universitária e polos industriais – para entender oferta de motoristas mulheres, demanda de passageiras e tempos de espera.
As três modalidades oferecidas no aplicativo
1. Reserve Mulheres Motoristas
Funciona dentro do Uber Reserve, serviço que permite agendar corridas com 30 minutos ou mais de antecedência. A opção “Mulheres Motoristas” aparece no momento da reserva, garantindo que a corrida seja alocada a uma condutora.
2. Preferência das Mulheres
Configuração que pode ser ativada nas preferências do UberX. Sempre que possível, o algoritmo prioriza motoristas mulheres. Se não houver nenhuma disponível nas proximidades, o sistema redireciona automaticamente para o motorista homem mais próximo, sem intervenção manual da passageira.
3. Mulheres Motoristas
Botão que surge na tela de seleção de produto ao chamar uma corrida imediata. Aqui a passageira opta explicitamente por uma condutora. Caso o tempo de espera extrapole o aceitável, o app questiona se ela prefere aguardar ou aceitar o motorista homem mais próximo. Por enquanto, esse recurso está restrito a Piracicaba.
Contexto: o que já existe na Uber e na concorrência
Desde 2019, a Uber oferece o U-Elas, mas o foco é do lado da oferta: motoristas mulheres podem limitar o recebimento de chamadas a passageiras. Do lado da demanda, até então não havia como a cliente filtrar o gênero do condutor.
A 99 conta com lógica semelhante para condutoras, batizada de 99Mulher, mas ainda não libera a seleção direta de motoristas mulheres para passageiras. A empresa usa a inteligência artificial Pítia para identificar situações de risco e, nesses casos, priorizar condutoras ou motoristas homens com alta avaliação.
Imagem: Vitor Pádua
Já a Lady Driver nasceu nichada: só motoristas mulheres, atendendo mulheres, crianças e idosos. O serviço, porém, opera em menos cidades e não tem a capilaridade da Uber ou da 99.
Corrida Pela Confiança: por que essa aposta pode redesenhar a mobilidade urbana
Segurança é, de longe, o principal gatilho para adoção de uma opção exclusivamente feminina, mas não o único. Ao colocar a escolha na mão da passageira, a Uber mexe nas variáveis de oferta e demanda que sustentam o modelo de marketplace. Se o piloto mostrar aumento de corridas e melhoria de avaliação sem impactar drasticamente o tempo de espera, o próximo passo deve ser escalar o recurso – primeiro para grandes capitais e, depois, para mercados onde a penetração da empresa ainda é tímida.
Do lado das motoristas, a iniciativa pode funcionar como incentivo para que mais mulheres entrem na plataforma, atraídas pela perspectiva de corridas mais seguras. Isso gera um ciclo virtuoso: mais condutoras reduzem o tempo de espera das passageiras que preferem mulheres ao volante, o que aumenta a demanda e, por consequência, a renda potencial dessas profissionais.
Para quem opera sites ou cria conteúdo sobre mobilidade, turismo ou economia urbana, vale acompanhar três indicadores: evolução no número de novas motoristas mulheres, variação do tempo médio de espera nas categorias femininas e eventual impacto tarifário (prêmios de preço podem surgir se a demanda crescer muito rápido). No médio prazo, plataformas concorrentes terão de responder com soluções similares ou argumentos sólidos de segurança, o que pode elevar o padrão mínimo do setor inteiro.
Em um cenário de regulamentação crescente e pressão por políticas de inclusão, a Uber se adianta com uma medida que combina marketing de causa e análise de dados. Se der certo, a “Preferência das Mulheres” pode ser o catalisador de um novo capítulo na disputa pelo trajeto mais seguro — e pela preferência dos usuários.