Imagine ver os tradicionais rivais Intel e AMD dividindo a mesma linha de produção. Parece roteiro de ficção, mas fontes ouvidas pelo portal Semafor afirmam que as duas companhias abriram conversas preliminares para que parte dos chips da AMD seja produzida pela divisão Intel Foundry Services (IFS). Para quem vive de hardware, cria conteúdo sobre tecnologia ou depende de anúncios em sites especializados, esse possível acordo pode mexer nas bases de preço, disponibilidade e até na narrativa de “azul contra vermelho” que domina o mercado de PCs há décadas.
O movimento ocorre em meio a uma tempestade perfeita: tensões geopolíticas envolvendo Taiwan, subsídios bilionários dos Estados Unidos ao setor de semicondutores e a necessidade da Intel de tornar suas fábricas mais rentáveis. Entender o motivo dessa aproximação e o que ela pode significar daqui para frente é essencial para quem trabalha com análise de mercado, gestão de estoques ou simplesmente precisa explicar aos leitores por que o processador do próximo notebook pode ter sido criado por uma empresa e fabricado pela concorrente.
Como começaram as conversas entre AMD e Intel
De acordo com o Semafor, pessoas familiarizadas com o assunto confirmam que a Intel iniciou “negociações em estágio inicial” para adicionar a AMD à carteira de clientes da IFS. Por enquanto, não há cronograma, volume de produção nem indicação de quais linhas de processadores estariam na mesa. Também não se descarta que o diálogo não avance — o histórico de rivalidade pesa e a troca de informações sensíveis precisa passar por barreiras legais e culturais.
Em cenários anteriores, a Intel já atraiu parceiros improváveis: a SoftBank fez aportes na empresa e, mais recentemente, a NVIDIA anunciou um investimento de US$ 5 bilhões para desenvolver chips com GPUs RTX integradas em fábricas da companhia de Santa Clara. Na prática, a Intel tenta provar ao mercado que pode ser uma alternativa real à TSMC e à Samsung na prestação de serviços de fundição.
AMD busca seguro contra riscos geopolíticos e pressões de Washington
Hoje, 100% dos processadores Ryzen, Radeon e EPYC são produzidos pela TSMC em Taiwan. O ponto forte da parceria é o acesso às tecnologias de litografia mais avançadas do mercado, mas há dois fatores de risco:
- Tensão na Ásia-Pacífico: Um agravamento entre China e Taiwan poderia interromper cadeias de abastecimento em questão de semanas.
- Lei CHIPS dos EUA: O governo norte-americano oferece incentivos fiscais para que empresas fabrique-m mais no território nacional, favorecendo quem diversificar produção em solo americano.
Ao ensaiar um acordo com a Intel, a AMD ganharia um “plano B” em caso de crise geopolítica, atenderia às exigências de Washington e ainda aumentaria seu poder de negociação frente à própria TSMC. Há, inclusive, rumores de que a AMD poderia, a exemplo da SoftBank, comprar participação na Intel para assegurar capacidade fabril — algo sem confirmação oficial.
Limitação técnica: nós 18A e 14A são suficientes?
Apesar de promessas públicas de que os nós de 18 angstroms (18A) e 14 angstroms (14A) da Intel rivalizarão com os de 3 nm e 2 nm da TSMC, analistas consideram a companhia norte-americana ainda um ou dois ciclos atrás da líder taiwanesa. Isso restringe o tipo de produto que a AMD poderia delegar à Intel. Entre os cenários mais prováveis:
Imagem: Internet
- Chips de baixo impacto competitivo: SoCs customizados para consoles, roteadores ou dispositivos IoT, onde o custo e a proximidade geográfica pesam mais que a litografia de ponta.
- Processadores de gerações anteriores: Reedições de CPUs e GPUs já amortizadas, usadas em notebooks de entrada ou datacenters que priorizam preço.
- Componentes auxiliares: Controladores e chipsets que não exigem o processo mais sofisticado da TSMC.
Mesmo assim, qualquer acerto teria de endereçar a preocupação de propriedade intelectual: especificações de design da AMD estariam, de fato, nas mãos da concorrente direta.
Competição ou cooperação? Por que esta aproximação pode redesenhar o mapa dos semicondutores
A possível parceria AMD–Intel expõe uma mudança de paradigma na indústria de chips. De um lado, o modelo IDM puro — desenhar, fabricar e vender — já não sustenta margens históricas; a Intel tenta rentabilizar fábricas ociosas e diluir custos astronômicos de P&D. De outro, a AMD percebe que depender de um único fornecedor, ainda que seja o melhor, é arriscado num mundo em que logística e política se confundem.
Se o acordo vingar, três efeitos podem surgir:
- Pressão adicional sobre a TSMC. A líder absoluta teria de negociar preços mais agressivos para manter a AMD exclusivamente em sua carteira, o que poderia beneficiar outras empresas que também fabricam lá, como Apple e Qualcomm.
- Validação do modelo de fundição da Intel. Ter um rival histórico como cliente seria o selo de confiança que a IFS precisa para atrair novos contratos e justificar os incentivos recebidos do governo dos EUA.
- Nova dinâmica de lançamento de produtos. Para consumidores e criadores de conteúdo, isso pode significar maior disponibilidade de CPUs em épocas de escassez e, potencialmente, linhas de produtos “híbridas”, com litografias distintas, refletindo uma segmentação mais fina de preço e performance.
No fim, cooperação e competição poderão coexistir, exatamente como ocorre na indústria de smartphones, onde Samsung fabrica telas para a Apple ao mesmo tempo em que disputa cada comprador de iPhone. O desfecho das conversas entre AMD e Intel não está garantido, mas o simples fato de elas acontecerem revela que, na corrida dos semicondutores, estratégias tradicionais já não bastam — é preciso flexibilidade para sobreviver em um tabuleiro cada vez mais geopolítico e menos puramente tecnológico.