Imagine liderar um setor por 40 anos, ignorar um concorrente considerado “de nicho” e, de repente, acordar para descobrir que esse mesmo rival vale quase 30 vezes mais que você. Foi exatamente isso que aconteceu com a Intel frente à NVIDIA — e, para completar a reviravolta, as duas agora trabalham lado a lado em um projeto que une CPUs x86 a GPUs RTX.
Para quem produz conteúdo, administra servidores ou depende de anúncios e afiliados, a mudança de poder entre as duas empresas não é apenas um dado de bolsa de valores. Ela define qual hardware vai rodar o WordPress do seu blog, qual nuvem processará seu modelo de IA e até quanto você pagará (ou lucrará) com tempo de máquina. A seguir, destrinchamos os fatos e, no fim, analisamos o “E daí?” dessa história digna de roteiro de cinema.
Da hegemonia da Intel ao salto da NVIDIA
Durante décadas, a Intel dominou o mercado de microprocessadores, amparada na famosa Lei de Moore, que previa dobrar a quantidade de transistores a cada 18–24 meses. Em julho de 2020, porém, a primeira fissura ficou evidente: a NVIDIA ultrapassou a Intel em valor de mercado. O marco era simbólico, mas prenunciava algo maior.
Corte para junho de 2025: a NVIDIA alcança aproximadamente US$ 4,2 trilhões em capitalização, enquanto a Intel estaciona perto dos US$ 142 bilhões. Na prática, a empresa de Jensen Huang vale quase 30 vezes mais. Huang, aliás, acumula fortuna estimada em US$ 158 bilhões — cifra que supera o valor total da própria Intel.
Uma década de decisões opostas
O ponto de inflexão remonta a 2009, quando a NVIDIA vivia prejuízos sucessivos. Mesmo assim, Bill Dally, então chefe de ciência da computação em Stanford, trocou uma oferta robusta da Intel por um posto na NVIDIA. Na época, executivos ligados à Intel chamaram a decisão de “loucura”.
Enquanto a Intel seguia focada em ganho de desempenho serial e tentava, sem sucesso, emplacar a placa Intel i740 ou o projeto Larrabee, a NVIDIA investia na computação paralela e criava o CUDA, um ambiente que transformou GPUs em mini-supercomputadores. Resultado: ganho de até mil vezes em tarefas de IA, algo que nenhuma evolução linear de transistores conseguiria entregar.
Mesmo com a estreia das GPUs Intel Arc em 2022 e a promessa da geração Battlemage, a empresa detém menos de 1 % do mercado de placas dedicadas. A NVIDIA controla cerca de 92 %, enquanto a AMD ocupa os 8 % restantes.
Imagem: William R
Quando o inimigo vira sócio: detalhes da parceria x86 + RTX
Em um movimento inesperado, Intel e NVIDIA anunciaram uma parceria estratégica. A NVIDIA investirá US$ 5 bilhões na compra de ações da Intel a US$ 23,28 cada, tornando-se uma das maiores acionistas. Na prática, a união prevê dois eixos:
- Intel x86 RTX SoCs para PCs e data centers: chiplets de CPU Intel unidos a GPUs RTX em um mesmo pacote, ligados por NVLink. A interface oferece até 14 vezes mais largura de banda e menor latência que o padrão PCIe.
- CPUs personalizadas para IA em data center: a Intel fabricará processadores x86 sob medida para as infraestruturas de IA que a NVIDIA vende em nuvem ou embarca em appliances.
O anúncio chega semanas após o governo dos EUA adquirir cerca de 10 % da Intel, numa tentativa de reerguer a companhia para a corrida da inteligência artificial.
Além do market cap: lições para quem depende de infraestrutura digital
Quando hardware vira plataforma, a história muda. A Intel achava que competir era colocar mais transistores; a NVIDIA construiu um ecossistema de software (CUDA) e capturou desenvolvedores. Para criadores de conteúdo, agências e afiliados, isso se traduz em:
- Custo e disponibilidade de nuvem: provedores seguem o que o mercado de IA exige. Se 92 % dos frameworks rodam melhor em GPU NVIDIA, mais clusters com chips H100 ou Grace-Hopper surgem. O preço da hora de máquina acompanha a procura.
- Poder computacional local: notebooks e desktops com GPU dedicada tendem a adotar designs “em pacote” (CPU + GPU) que privilegiam NVLink. Isso pode baratear workstations para render ou treinamento leve de IA, mas também pode dificultar upgrades modulares.
- Fragmentação de ecossistema: ao unir forças, Intel e NVIDIA criam uma ponte improvável, mas deixam a AMD isolada. Quem cria plugins, temas ou modelos de IA precisará otimizar para esse novo combo x86 + RTX, ou correr o risco de ficar menos competitivo.
No fim, a história lembra que inovação não é só transistor — é visão de mercado e comunidade de desenvolvedores. A Intel ignorou esse detalhe e perdeu a coroa; agora tenta reconquistá-la apoiando-se justamente em quem a destronou. Para quem vive de tecnologia — seja publicando blog, monetizando com AdSense ou treinando LLMs — entender essas dinâmicas é fundamental para planejar o próximo passo.