Quando Channing Tatum apareceu rapidamente em “Deadpool & Wolverine” (2024) com as cartas na mão, fãs de X-Men ficaram em êxtase: o ator enfim vestia o manto de Gambit, algo prometido há quase uma década. Mas o que poucos sabiam é que, nos bastidores, Tatum defendia uma versão bem diferente do herói — uma comédia romântica para maiores de 18 anos, lotada de cenas de sexo, que a Disney sequer cogitou aprovar.
A revelação veio em entrevista à Variety, na qual o ator descreve um roteiro “selvagem” apresentado ainda na era Fox. O projeto, que ficou no limbo após a compra do estúdio pela Disney, expõe o conflito entre a visão mais adulta do artista e a estratégia familiar da nova dona do pedaço. Para quem cria conteúdo, trabalha com marketing ou simplesmente acompanha os rumos da indústria geek, entender esse embate ajuda a prever que tipo de produção a Marvel pode (ou não) entregar daqui em diante.
O plano original: uma comédia romântica mutante, mas sem pudores
Tatum deixou claro que seu pitch fugia do tradicional filme de super-herói. A ideia era combinar ação leve com um romance picante, explorando o carisma de Gambit — um mutante cajun conhecido justamente pelo charme.
Classificação indicativa: o ator queria um selo +18, não pela violência à “Logan”, mas por cenas de sexo explícitas entre mutantes.
Tom adulto: o roteiro dava prioridade à química entre personagens, tratando sensualidade como parte central da história, não como fan-service ocasional.
Incompatibilidade Disney: “Você nunca sabe exatamente o que a Disney vai ser, mas sabe o que ela não vai ser: terror ou sexo”, resumiu Tatum.
A compra da Fox e o limbo criativo
Quando a Disney adquiriu a 20th Century Fox em 2019, diversos projetos passaram por avaliação de “compatibilidade” com a marca. O Gambit de Tatum, apesar de avançado, foi colocado em espera indefinida.
Deadpool como exceção: o mercenário tagarela ganhou sinal verde para continuar R-rated, mas sob forte controle de roteiro. Segundo o ator, seu Gambit seria “mais ousado” justamente pelo teor sexual, área onde a empresa prefere não arriscar.
Perspectiva de futuro: Tatum aparecerá novamente em “Vingadores: Doomsday”, dos irmãos Russo, previsto para 2027. Rumores indicam que o longa servirá de “soft reboot” dos mutantes, possivelmente encerrando sua versão do personagem.
Imagem: Internet
Gambit no MCU: um destino ainda indefinido
Mesmo com a participação garantida no próximo Vingadores, nada assegura a permanência de Tatum depois do filme.
Reset multiversal: fontes internas sugerem que “Doomsday” reestruturará completamente a cronologia dos X-Men, abrindo espaço para novo elenco e novas abordagens.
Potencial de mercado: Gambit continua popular entre fãs, aparecendo em games, HQs e animações. Essa visibilidade facilita o retorno do personagem, ainda que com outro rosto.
Sexo, marca e controle: o quebra-cabeça que ainda trava heróis adultos
A Disney tem como pilar a reputação “family friendly”, elemento valioso para licenciamento, parques temáticos e streaming. Filmes R-rated que apostam no humor violento (caso de Deadpool) já exigem malabarismos de marketing; produções focadas em erotismo elevam o risco de repercussão negativa e de restrições em mercados internacionais.
Para a Marvel Studios, cada investimento precisa dialogar com linhas de receita além da bilheteria — brinquedos, produtos infantis, colaborações globais. Um Gambit centrado em sexo bateria de frente com esses fluxos, diminuindo a vida útil do personagem fora das telas e limitando oportunidades de monetização derivada.
No atual tabuleiro corporativo, a ousadia R-rated só ganha espaço quando compensa financeiramente (Deadpool) ou quando serve de laboratório de imagem (o vindouro “Blade”). Uma comédia romântica mutante adulta é, portanto, um tiro menos óbvio — e, por enquanto, a Disney prefere não puxar esse gatilho. Com o multiverso possibilitando infinitas versões de cada herói, manter Gambit engavetado até surgir um formato “mais seguro” parece, aos olhos do conglomerado, a opção de menor risco.
Em resumo, o caso coloca em evidência o dilema entre criatividade autoral e a lógica corporativa que dita o rumo dos blockbusters. Se você produz conteúdo ou analisa tendências, vale acompanhar: os limites impostos hoje ajudam a traçar o perfil das narrativas que dominarão as manchetes — e os algoritmos — nos próximos anos.