Guardar dinheiro ainda é um desafio para milhões de pessoas que nunca tiveram conta bancária ou acesso fácil a investimentos. Na Índia, a fintech Jar transformou esse gargalo em oportunidade ao digitalizar um hábito culturalmente enraizado: comprar ouro aos poucos. Em apenas quatro anos, o app saiu do zero para mais de 35 milhões de usuários, virou o jogo das receitas e começou a fechar trimestres no azul.
Para quem acompanha tecnologia, monetização de aplicativos ou simplesmente procura inspiração de produto, o case importa por dois motivos: mostra como se cria um funil de entrada massivo usando um ativo familiar ao público e revela um modelo de receita escalável mesmo fora dos grandes centros urbanos. A seguir, destrinchamos os números, as viradas estratégicas e o que isso ensina sobre UX, retenção e diversificação de ganhos.
Micro-poupança em ouro: o “gancho” que atraiu 35 milhões de usuários
• Qualquer pessoa pode começar a investir com apenas 10 rúpias (≈ US$ 0,11) por dia.
• 60 % do público vem de cidades de porte médio e pequeno (as chamadas tier-2 e tier-3).
• Mais de 95 % desses clientes nunca haviam usado um produto financeiro formal.
• O app oferece interface em nove idiomas e usa gamificação para estimular aportes recorrentes.
Receita multiplicada por 49× e dois trimestres consecutivos de lucro
• No ano fiscal encerrado em março de 2024, a receita operacional da Jar (apenas com poupança em ouro) chegou a 2,08 bilhões de rúpias (≈ US$ 23,6 mi), nove vezes mais que no exercício anterior.
• Considerando todos os braços de negócios, a receita total saltou para 24,5 bilhões de rúpias (≈ US$ 279,3 mi) — crescimento de 49×.
• A empresa se manteve lucrativa após impostos nos dois últimos trimestres reportados.
Verticalização do ouro e expansão de produtos
• Antes, a Jar apenas distribuía ouro digital de um fornecedor parceiro; agora, controla compra, custódia e gestão do metal precioso. A auditoria é da BDO e a guarda física fica com a Brinks.
• Essa verticalização permitiu aumentar a margem e também vender ouro via terceiros, como o app PhonePe (controlado pelo Walmart).
• Em 2023, a startup lançou a plataforma de joias Nek, que opera em drop-shipping e já supera 1 bilhão de rúpias/ano em vendas de ouro, prata e diamantes.
UPI, AutoPay e parcerias para virar carteira digital completa
• Integrada ao sistema indiano de pagamentos instantâneos (UPI), a Jar firmou acordos com BharatPe e Unity Small Finance Bank para permitir transferências P2P e pagamentos a lojistas sem sair do app.
• A função UPI AutoPay, liberada em 2020, automatiza aportes diários e impulsiona a recorrência.
• Resultado: aumento do tempo gasto no aplicativo e geração de novas linhas de receita com taxas de transação.
Quem banca a história e o que vem aí
• Investidores de peso como Tiger Global, Tribe Capital, Arkam Ventures e WEH Ventures já injetaram US$ 63,3 milhões, avaliando a Jar acima de US$ 300 milhões.
• Segundo fontes de mercado, bancos de investimento negociam um IPO para 2026.
Além da Cultura do Ouro: Lições que um Blog, um App ou um E-commerce Podem Tirar Desse Caso
A trajetória da Jar mostra que “produto matador” nem sempre significa tecnologia de ponta; às vezes, é ligar um comportamento existente a uma experiência simplificada. Ao replicar o ato tradicional de comprar ouro — só que em toques de tela e valores irrisórios —, a fintech removeu barreiras psicológicas e técnicas, algo que profissionais de UX e growth podem transpor para qualquer nicho:
Imagem: Internet
1. Oferta-gancho simples, backend complexo. O usuário vê apenas a compra de ouro em poucos cliques; por trás, há custódia, auditoria e integração com terceiros. O paralelo em e-commerce ou publicidade é oferecer a “ação de um botão” enquanto automatiza logística, estoque ou leilão de mídia.
2. Linguagem, não localização. Disponibilizar nove idiomas populares deu mais resultado que segmentar só por região. Para criadores de conteúdo no Brasil, pode valer mais investir em variações de português (formal, técnico, coloquial) do que na obsessão por geolocalização IP.
3. Receita diversificada cedo. A Jar não esperou escalar usuários para então monetizar; colocou joias, repasses a parceiros e pagamentos UPI na mesma raiz de conta. Blogs que dependem 100 % de AdSense ou afiliados podem usar essa lição para buscar múltiplas fontes antes de precisarem delas.
4. Micro-compromisso e recorrência. O AutoPay fez o usuário “assinar” o hábito de poupar. Em SaaS, newsletters ou clubes de assinatura, o equivalente é eliminar fricção de renovação enquanto apresenta valor continuo.
5. Tier-2 e Tier-3 são Oceano Azul. No Brasil, cidades fora dos grandes centros concentram crescimento de internet móvel e poder de compra ainda sub-explorado. A Jar prova que adaptar linguagem e ticket médio abre mercados gigantes onde CAC costuma ser menor.
No fim, a Jar deixa claro que combinar tradição e tecnologia pode gerar tanto engajamento quanto retorno financeiro. Para quem desenvolve produtos digitais, administra blogs ou roda campanhas de afiliados, a mensagem é direta: entenda o comportamento preexistente do seu público — não tente criá-lo do zero — e construa a experiência que faltava para convertê-lo em receita previsível.