Introdução
Depois de meses de novas ameaças e medidas retaliatórias, Estados Unidos e China decidiram esfriar os ânimos. Em um encontro relâmpago num aeroporto de Busan, na Coreia do Sul, Donald Trump e Xi Jinping acertaram uma trégua comercial válida por 12 meses. O pacto reduz tarifas norte-americanas, suspende sanções chinesas sobre minerais raros e reacende a exportação de soja para o maior mercado do mundo.
Essa pausa não chega a ser o fim da guerra econômica, mas sinaliza uma tentativa de estabilizar duas cadeias de suprimentos críticas: a de semicondutores e a de matérias-primas estratégicas. Entender por que esse armistício ocorreu agora — e quais setores sentirão primeiro o efeito — ajuda a decifrar o tabuleiro geopolítico que impacta tudo, do preço do smartphone à safra brasileira.
O que está no papel: cortes de tarifas e liberação de minerais
Pelo acordo, Washington diminui de 57% para 47% o imposto sobre uma cesta de produtos “sensíveis” vindos da China. Em troca, Pequim congela a ampliação de restrições sobre a exportação de rare earths, conjunto de 17 elementos essenciais à fabricação de motores elétricos, baterias e imãs de alta performance. A lista inclui neodímio, cério e lantânio, itens que colocam a China com mais de 80% da oferta global.
O governo norte-americano também retoma compras de soja do país asiático, um alívio temporário para agricultores do Meio-Oeste, que vinham perdendo mercado para Brasil e Argentina desde 2018. Como contrapartida extra, Pequim promete reforçar barreiras ao tráfico de fentanila, opioide sintético que virou crise de saúde pública nos EUA.
Semicondutores em foco: conversa sobre NVIDIA, mas sem “Blackwell”
Na pauta tecnológica, Trump confirmou que o assunto “chips de IA” esteve na mesa, embora negue ter tratado especificamente da arquitetura Blackwell, novo carro-chefe da NVIDIA para treinamento de modelos de inteligência artificial. O detalhe chama atenção: hoje, a NVIDIA pode vender apenas versões menos potentes de suas placas à China devido a controles de exportação dos EUA. Uma possível flexibilização indicaria mudança de rota na estratégia de limitar a ascensão chinesa em IA.
Nenhuma decisão concreta saiu sobre semicondutores, mas o simples fato de o tema surgir indica que a disputa não se resume a cifras alfandegárias: ela gira em torno de quem comandará a próxima onda de computação acelerada e, por tabela, de inovação militar.
O acordo acalma, mas não encerra a guerra tarifária
O texto assinado inclui uma cláusula de “pausa completa” na política olho-por-olho. Na prática, isso significa que, durante 12 meses, nenhum dos lados poderá impor novas tarifas sem antes acionar um mecanismo de consulta. Esse freio impede que o comércio bilateral volte a travar — algo que já ocorreu em 2019, quando contêineres ficaram parados em portos por dias, aumentando custos logísticos globais.
Imagem: Internet
Mesmo assim, o arsenal de tarifas permanece à disposição. Se o diálogo fracassar, as antigas alíquotas podem reaparecer rapidamente, lembrando que essa não é a primeira trégua desde 2018 — e as anteriores duraram pouco.
Tabuleiro em Movimento: por que esta pausa diz mais sobre chips do que sobre soja
Por trás da aparente conciliação, o acordo revela prioridades novas. A redução de 10 pontos percentuais nas tarifas é modesta perto das sobretaxas originais, mas sinaliza goodwill num momento em que Estados Unidos enfrentam inflação persistente e China registra desaceleração no crescimento. Ao mesmo tempo, manter a porta semiaberta para vendas de hardware avançado sugere que Washington testa formas de controle mais cirúrgicas, permitindo fluxo de capital para empresas norte-americanas (NVIDIA inclusa) sem entregar poder computacional de última geração a Pequim.
Para o Brasil e demais exportadores de commodities, a volta da soja norte-americana ao mercado chinês pode pressionar preços, mas tende a ser amortecida por estoques baixos e demanda firme. Já no campo tecnológico, a suspensão de barreiras a minerais raros remove, por um ano, o risco de choque de oferta que encareceria veículos elétricos e turbinas eólicas em todo o mundo.
No fim das contas, a trégua funciona como relógio que dá a ambos os líderes tempo para resolver impasses internos — eleições dos dois lados se aproximam — e repensar como travar, ou evitar, a “guerra dos chips” que realmente vai definir quem dita a inovação global na próxima década.
Conclusão
A trégua sino-americana de doze meses acalma mercados, mas não dissolve interesses conflitantes. Tarifas menores aliviam pressões imediatas sobre consumidores e agricultores; liberar rare earths garante fôlego à transição energética; e discutir chips deixa claro que inteligência artificial é o novo front. Se os dois gigantes aproveitarão o intervalo para negociar paz duradoura — ou apenas recarregar armamentos econômicos — é a pergunta que mantém analistas em alerta.