Quando a Electronic Arts confirmou que aceitara uma oferta de US$ 55 bilhões liderada pelo Fundo de Investimento Público (PIF) da Arábia Saudita, o mercado de games virou manchete — mas a repercussão política em Washington foi ainda maior. Para quem desenvolve, monetiza ou simplesmente joga, o negócio é mais do que uma troca de controle acionário: ele levanta a pergunta sobre quem guia as histórias que consumimos e os dados que entregamos.
Dois senadores dos Estados Unidos, Richard Blumenthal e Elizabeth Warren, pediram uma análise minuciosa do acordo, alegando risco à segurança nacional e à “integridade cultural” do país. A disputa, portanto, não gira só em torno de consoles e PCs; envolve soft power, algoritmos de IA e um fluxo bilionário de informação que impacta desde criadores de conteúdo em WordPress até campanhas de marketing em Google AdSense.
O acordo de US$ 55 bilhões e seus bastidores
• Valor: estimado em US$ 55 bilhões, uma das maiores aquisições já vistas na indústria do entretenimento digital.
• Compradores: consórcio encabeçado pelo PIF, com participação da Silver Lake e da Affinity Partners, fundo criado por Jared Kushner.
• Alcance: 100% das ações da EA, mantendo Andrew Wilson como CEO e a sede na Califórnia, com conclusão prevista até junho de 2026.
A presença da Affinity Partners, financiada por capitais sauditas e ligada ao ex-assessor presidencial, adicionou camadas de escrutínio quanto a possíveis conflitos de interesse. Para investidores, o lance acima do valor de mercado sugere que a motivação ultrapassa retorno financeiro — tese que alimenta as críticas de parlamentares.
Os pontos que inquietam o Congresso norte-americano
Em carta ao secretário do Tesouro, os senadores solicitaram que o Comitê de Investimento Estrangeiro nos EUA (CFIUS) investigue:
- Influência cultural: receio de que o novo controlador filtre ou altere narrativas em jogos de alcance global.
- Segurança de dados: possibilidade de acesso do governo saudita a informações pessoais de milhões de jogadores.
- Uso de IA: riscos de aplicar tecnologia proprietária da EA em vantagens geopolíticas ou campanhas de desinformação.
- Censura e liberdade de expressão: histórico de repressão de críticos na Arábia Saudita acende alerta sobre veto a conteúdos sensíveis.
- Transparência corporativa: debate sobre a necessidade de registro de agentes estrangeiros sob a lei FARA.
Blumenthal e Warren também classificaram o movimento como parte de uma estratégia do PIF para “comprar influência” em setores culturais — prática já observada em clubes de futebol europeus e em torneios de e-sports.
A resposta da EA e o cronograma até 2026
A desenvolvedora declarou que o negócio foi aprovado pelo conselho e que manterá sua liderança, estrutura de estúdios e sede nos EUA. Em nota, Andrew Wilson ressaltou intenção de “ampliar limites do entretenimento”. Ainda assim, a empresa recebeu uma segunda carta dos senadores solicitando garantias formais sobre:
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- Políticas internas de proteção de dados;
- Procedimentos em caso de solicitação governamental de informação;
- Métodos de auditoria em ferramentas de IA;
- Salvaguardas contra interferência editorial.
Até agora, a EA não divulgou detalhes adicionais sobre como responderá a cada exigência, mas reforçou que espera concluir a transação em até nove meses após aprovação regulatória.
Soft power nos videogames: por que este negócio pode redefinir a economia da atenção
A tensão entre capital estrangeiro e produção cultural não é novidade, mas chega agora ao centro da economia da atenção. Games não são apenas produtos: viraram plataformas de socialização, publicidade e coleta de telemetria comportamental. Para profissionais de marketing, qualquer mudança na governança da EA pode alterar políticas de dados, ecossistemas de anúncios in-game e até o relacionamento com creators que dependem de licenças da franquia FIFA — agora EA Sports FC — para produzir conteúdo em massa.
Se o PIF buscar retorno reputacional, podemos ver investimentos pesados em eventos, ligas e microtransações que elevem a visibilidade positiva do reino saudita. Já um foco em controle narrativo abriria discussões sobre moderação de conteúdo, representatividade e, no limite, boicotes semelhantes aos enfrentados por outras empresas envolvidas em disputas políticas.
Para desenvolvedores independentes e publishers menores, o cenário pode significar consolidação acelerada: com mais recursos, a “nova EA” tende a absorver estúdios ou comprar exclusividades, criando barreiras de entrada. Por outro lado, a vigilância do CFIUS e de órgãos reguladores europeus pode impor condições de transparência que acabem se tornando padrão de mercado, beneficiando concorrentes que já adotam boas práticas de governança de dados.
No fim, o debate extrapola fronteiras corporativas e vai direto ao usuário comum: quem decide o que você joga — e quais dados você entrega em troca de diversão? A resposta, moldada nos gabinetes de Washington e Riyadh, terá reflexos que vão dos termos de privacidade nos consoles à forma como marcas posicionam anúncios dentro dos mundos virtuais.