Quando um novo aplicativo de mensagens pula de alguns milhares para milhões de downloads em poucos dias, vale a pena entender o que está por trás desse crescimento explosivo. É exatamente o caso do Arattai, criado pela empresa indiana Zoho. Impulsionado por uma forte campanha governamental de “soberania digital”, o app saltou para a casa dos 7 milhões de usuários em apenas uma semana — um feito relevante num país onde o WhatsApp domina com mais de 500 milhões de contas ativas.
Para quem trabalha com conteúdo, marketing digital ou simplesmente depende da comunicação móvel, o fenômeno do Arattai é mais do que uma curiosidade local. Ele aponta tendências sobre custos de dados, privacidade, apoio estatal a soluções domésticas e mudanças de comportamento em mercados emergentes — pontos que afetam diretamente estratégias de aquisição de público e monetização.
Da campanha nacionalista ao pico de downloads
O Arattai — “bate-papo”, em tâmil — foi lançado discretamente em 2021. Tudo mudou em outubro de 2025, quando o governo indiano intensificou o discurso de autossuficiência tecnológica. O primeiro-ministro Narendra Modi e seus ministros começaram a recomendar publicamente aplicativos criados na Índia, incluindo o mensageiro da Zoho.
O efeito foi imediato. Segundo o CEO Mani Vembu, cadastros diários saltaram de 3 mil para 350 mil em três dias. A base total passou de 5 milhões para 7 milhões em uma semana, impulsionada pelo sentimento de “produzir e gastar na Índia”. Embora o apoio político traga visibilidade, analistas lembram que o grande desafio será manter engajamento de longo prazo onde o WhatsApp já é parte do tecido social — inclusive em serviços públicos e pequenos negócios.
Recursos pensados para conexões frágeis
A Zoho projetou o Arattai para cenários de conectividade limitada, comuns em áreas rurais e semiurbanas da Índia. O aplicativo:
- Consome menos dados, mantendo chamadas de voz e vídeo estáveis em redes 3G ou até 2G;
- Opera de forma fluida em smartphones básicos, um ponto crítico em mercados onde hardware baratinho ainda é a regra;
- Disponibiliza compartilhamento de arquivos, versão para Android TV e funções voltadas a micro e pequenas empresas.
Essa combinação explica a rápida adoção fora dos grandes centros urbanos, onde dados caros e sinal instável criam barreiras para plataformas mais pesadas.
Imagem: Internet
Privacidade: o calcanhar de Aquiles
Diferentemente do WhatsApp, o Arattai oferece criptografia de ponta a ponta somente em chamadas de voz e vídeo; as mensagens de texto ainda não recebem o mesmo nível de proteção. Especialistas em cibersegurança apontam que esse é o mínimo esperado para mensageiros modernos e que a ausência cria brechas para monitoramento estatal ou vazamentos.
A Zoho afirma que a criptografia integral já está em desenvolvimento, mas o timing será decisivo. Qualquer atraso prolongado pode minar a confiança exatamente no momento em que o aplicativo tenta converter curiosidade em uso cotidiano.
Além do orgulho nacional: o que o avanço do Arattai sinaliza para criadores, empresas e o mercado de apps
O caso Arattai sintetiza um debate cada vez mais global: soberania digital versus ecossistemas dominados por Big Techs. Para profissionais de conteúdo e marketing, surgem três implicações práticas:
- Custos de distribuição: apps leves que funcionam com pouca banda podem virar ponto crítico para atingir públicos emergentes, onde cada megabyte pesa no bolso. Otimizar sites e campanhas para conexões instáveis deixa de ser diferencial e vira requisito.
- Fragmentação de audiência: se governos reforçarem a adoção de soluções locais, criadores precisarão gerenciar múltiplos canais de relacionamento — hoje concentrados no WhatsApp. Ferramentas de automação terão de se adaptar rapidamente.
- Privacidade como moeda de troca: usuários estão mais atentos a quem lê suas conversas. Apps que falharem nesse quesito podem perder tração mesmo com apoio estatal. Para empresas, transparência no tratamento de dados será um filtro natural de parceiros.
Se o Arattai vai desbancar o WhatsApp é incerto, mas seu crescimento repentino revela um cenário em que nacionalismo tecnológico, eficiência de dados e privacidade competem pela preferência do usuário. Quem produz conteúdo ou gere comunidades precisará acompanhar de perto: mudanças locais podem escalar rápido e redesenhar estratégias globais.