Quando a Electronic Arts – dona de franquias bilionárias como FIFA, Battlefield e The Sims – anunciou, em setembro, a venda de 100% de seu capital por cerca de US$ 55 bilhões a um consórcio liderado pelo Public Investment Fund (PIF) da Arábia Saudita, o mercado celebrou o tamanho da transação. Mas, em Washington, o negócio virou dor de cabeça quase instantânea. Dois senadores democratas pedem que o governo americano barre ou imponha condições duras ao acordo, citando riscos que vão além do dinheiro.
Para quem cria conteúdo, monetiza blogs ou trabalha com campanhas digitais, o desfecho pode mexer em algo maior do que a próxima temporada de cartas no Ultimate Team. Estamos falando de quem controla narrativas culturais, dados sensíveis de centenas de milhões de jogadores e tecnologias de IA que extrapolam o mundo gamer. A seguir, destrinchamos os fatos e, depois, analisamos o que realmente está em jogo.
O que exatamente foi comprado e por quem?
• Negócio: compra de 100% das ações da Electronic Arts.
• Valor anunciado: aproximadamente US$ 55 bilhões.
• Compradores: consórcio liderado pelo PIF, fundo soberano da Arábia Saudita.
• Parceiros: Silver Lake (gestora americana) e Affinity Partners, criada por Jared Kushner, genro do ex-presidente Donald Trump, e financiada majoritariamente por capital saudita.
A EA permanece sediada na Califórnia e Andrew Wilson segue como CEO, segundo comunicado da própria empresa. A conclusão do negócio é projetada para junho de 2026, após aprovações regulatórias.
Por que o negócio chamou atenção em Washington?
Os senadores Richard Blumenthal e Elizabeth Warren enviaram carta ao secretário do Tesouro, Scott Bessent, exigindo investigação rigorosa pelo Committee on Foreign Investment in the United States (CFIUS). Eles argumentam que:
- O PIF estaria pagando um prêmio acima do valor de mercado, sinalizando motivações políticas, não financeiras;
- O governo saudita poderia usar jogos da EA como ferramenta de propaganda cultural e censura;
- A Affinity Partners serviria de “porta dos fundos” para facilitar aprovação nos EUA, levantando suspeitas de conflito de interesses;
- Caso aprovado, o controle estrangeiro daria acesso a grandes volumes de dados de usuários americanos, com possíveis pedidos de compartilhamento pelo regime saudita.
O que os parlamentares querem saber da EA?
Em carta separada ao CEO Andrew Wilson, Blumenthal e Warren pedem respostas objetivas sobre cinco pontos:
- Proteção de dados: como evitar acesso do governo saudita às informações pessoais dos jogadores?
- Solicitações oficiais: qual será o protocolo caso Riyadh peça dados?
- Uso de IA: que salvaguardas impedirão utilização indevida de tecnologias proprietárias?
- Integridade narrativa: quais mecanismos garantem que enredos não sejam alterados por pressão política?
- Registro sob a FARA: algum executivo precisará ser classificado como agente estrangeiro?
A EA responde, por ora, que o conselho aprovou o acordo, que a sede continuará na Califórnia e que “seguirá expandindo os limites do entretenimento”. Detalhes sobre governança, entretanto, permanecem vagos.
Imagem: Internet
Dados, cultura e poder: por que a compra de um estúdio de games virou questão de Estado?
A discussão não é apenas sobre quem lucra com microtransações, mas sobre soft power. Jogos modernos são plataformas de narrativa interativa; controlá-los significa influenciar imaginários e coletar dados comportamentais em escala global. O PIF já comprou fatias expressivas na SNK, Embracer e Nintendo, mas a EA adiciona algo único: licenças esportivas, motores de IA e uma comunidade ocidental massiva.
Para profissionais de conteúdo digital, há ainda outro ponto: a convergência entre jogo e mídia. A EA usa telemetria para equilibrar mecânicas de engajamento, modelo replicado em publicidade programática e funis de afiliados. Se o núcleo decisório migrar para um regime com histórico de censura, a forma como dados são coletados, processados e monetizados pode mudar — impactando desde a personalização de anúncios no Google AdSense até diretrizes de conteúdo em plataformas de streaming.
Do lado regulatório, o CFIUS raramente intervém em aquisições de empresas de entretenimento, mas o cenário geopolítico atual — guerra de narrativas, IA generativa e privacidade — torna o caso emblemático. Se o governo americano impor restrições (por exemplo, veto a transferência de dados ou exigência de firewalls corporativos), abre-se precedente que pode afetar futuros negócios de gigantes como Netflix ou Epic Games.
Em suma, a compra da EA é teste de fogo para definir quem controla o tecido cultural digital na próxima década e como governos vão balizar esse poder. Qualquer que seja o veredicto, desenvolvedores, criadores de conteúdo e anunciantes precisarão acompanhar de perto: a partida já começou e o placar vai muito além dos consoles.