Quando o mercado de semicondutores parecia travado entre excesso de estoque e queda de preços, a Samsung virou o jogo. A empresa anunciou que seu lucro operacional mais do que dobrou entre julho e setembro, detonando as projeções de analistas. Não se trata apenas de um bom trimestre; é um sinal de que a corrida por inteligência artificial está redefinindo o setor — e a Samsung quer liderar essa etapa.
Com a demanda por chips de memória de alta largura de banda (HBM) em alta, a gigante sul-coreana recuperou terreno perdido para rivais como a SK Hynix, voltou ao topo em participação de mercado e sacudiu as ações na Bolsa asiática, que subiram mais de 5% logo após a divulgação. A seguir, destrinchamos os números e por que eles importam.
Resultados financeiros em detalhes
Receita: 86,1 trilhões de wons (≈ US$ 60,5 bi), ligeiramente acima da previsão de 85,93 tri de wons.
Lucro operacional: 12,2 trilhões de wons (≈ R$ 45,9 bi), superando a estimativa de 11,25 tri.
Na comparação anual, a receita cresceu 8,85% e o lucro operacional avançou 32,9%. Frente ao trimestre anterior, o salto foi ainda mais impressionante: +160% em lucro e +15,5% em receita.
Chips de memória: a engrenagem por trás do salto
A divisão Device Solutions, que engloba semicondutores, registrou lucro operacional de 7 tri de wons, quase o dobro do mesmo período de 2024. A receita chegou a 33,1 tri de wons, puxada pelos módulos HBM usados em sistemas de IA — justamente o tipo de chip que empresas como Nvidia compram em massa.
Esse desempenho veio após a Samsung passar nos testes de qualificação da Nvidia para um novo produto HBM. O reconhecimento não só garante pedidos volumosos como recoloca a fabricante na dianteira do mercado global de memória, posição que havia perdido para a SK Hynix no trimestre anterior, segundo a Counterpoint Research.
Dispositivos móveis mantêm o fôlego
O segmento de experiência móvel e redes, responsável por smartphones, tablets e wearables, registrou lucro operacional de 3,6 tri de wons, acima dos 2,82 tri de um ano antes. A boa recepção ao Galaxy Z Fold7 — principal aposta da marca no segmento premium — foi destaque nas vendas.
Imagem: Staska
Para o próximo trimestre, a Samsung espera que o “boom” de IA crie oportunidades tanto para chips quanto para dispositivos finais, reforçando a estratégia de integrar hardware avançado ao ecossistema móvel.
Além dos números: o que o salto da Samsung diz sobre o futuro dos chips
A forte recuperação em semicondutores mostra que o ciclo de baixa iniciado em 2022 está virando a página — mas de forma seletiva. Produtos básicos ainda sofrem pressão de preço, enquanto soluções de alto desempenho para IA se tornaram o novo “petróleo” digital. Ao obter a certificação da Nvidia para HBM e planejar fabricação em massa do HBM4 até 2026, a Samsung sinaliza vontade de manter o holofote em tecnologias premium, onde a margem é maior e a competição mais estratégica.
Isso também sugere mudanças na geopolítica dos chips. A liderança em HBM determina quem abastece data centers e modelos generativos, tornando-se peça-chave em acordos de fornecimento e em políticas industriais. Se a Samsung consolidar essa vantagem, pode ditar preços e cronogramas de entrega, impactando gigantes da nuvem e startups de IA.
No mercado de smartphones, a empresa reafirma a estratégia de buscar lucratividade com aparelhos dobráveis de alto valor, não apenas volume. A convergência de dispositivos e semicondutores dá à Samsung um portfólio verticalizado que poucos concorrentes conseguem replicar — e esse pode ser o diferencial em um cenário de incertezas macroeconômicas.
Em resumo, o trimestre confirma que a corrida por IA redefine prioridades: quem domina HBM e capacidade de fabricação tem a faca e o queijo na mão. A Samsung está se posicionando para ser exatamente esse player.