Imagine entrar em uma sala de aula onde mais da metade dos alunos já recorre ao ChatGPT para checar deveres ou ao DALL-E para ilustrar trabalhos de história. Não é um cenário futurista: é o retrato do Brasil em 2025. De acordo com o levantamento TIC Kids Online Brasil, 65% das crianças e adolescentes entre 9 e 17 anos utilizaram inteligência artificial generativa em pelo menos uma tarefa cotidiana. Para quem cria conteúdo, monetiza blogs ou gerencia campanhas digitais, esse dado é um termômetro poderoso do próximo comportamento de consumo — e ele está sendo moldado agora, nos anos de formação desses usuários.
O estudo, conduzido pelo Cetic.br em parceria com o NIC.br, também indica que 92% desse público é usuário da internet, somando 24,5 milhões de jovens conectados. Em outras palavras, a IA não é um luxo de nicho: é parte do cotidiano da maioria dessa geração, que já domina o celular com a mesma naturalidade com que puxa a cadeira na cozinha.
O alcance da conectividade entre 9 e 17 anos
A pesquisa ouviu presencialmente 2.370 crianças e adolescentes — e o mesmo número de pais ou responsáveis — entre março e setembro de 2025. O panorama revela que:
- 92% dos jovens brasileiros acessam a internet.
- 74% utilizam o celular todos os dias, tornando-o o dispositivo tecnológico mais presente.
- A televisão ocupa a segunda posição, mas distante: apenas 35% relatam uso diário.
Para que a garotada usa a IA?
Os motivos listados variam conforme a faixa etária, mas seguem quatro eixos principais:
- Pesquisas escolares e busca de informações — o “vem cá, ChatGPT” substitui (ou complementa) o Google tradicional.
- Criação de conteúdo — de redações a imagens para redes sociais, a IA vira co-autora.
- Conversas sobre problemas pessoais — sim, parte dos adolescentes vê nos chatbots um ombro (pseudo) amigo.
- Exploração geral — curiosidade pura, de “como faz” a “o que significa”.
O uso cresce com a idade: a adesão entre 15 e 17 anos supera, com folga, a observada na turma de 9 a 10 anos.
Apps e plataformas mais frequentados
No ranking de popularidade, o WhatsApp lidera absoluto, seguido por YouTube, Instagram e TikTok. O mensageiro, portanto, não é apenas canal de bate-papo: é porta de entrada para links, vídeos tutoriais e — claro — conteúdo gerado por IA.
Conexão nas escolas encolhe, publicidade cresce
Um dado chama a atenção: o acesso à internet dentro das escolas caiu de 51% em 2024 para 37% em 2025. Mesmo assim, onde há conexão, 12% dos estudantes navegam várias vezes ao dia e 13% pelo menos uma vez por semana.
Em contrapartida, a exposição a anúncios sobe. Segundo os pais entrevistados:
- 45% dos jovens esbarraram em publicidade considerada inadequada.
- 51% pediram algum produto após ver a propaganda online.
Esses usuários também percebem o efeito da coleta de dados: 65% reconhecem que falar ou pesquisar sobre um item aumenta o volume de anúncios relacionados.
Imagem: Julia M. Camer
Famílias aprendendo com os próprios filhos
Metade dos responsáveis (50%) afirma receber dicas de navegação segura das próprias crianças. Outras fontes de orientação incluem familiares, mídia tradicional e a escola. Curiosamente, 31% dos jovens ajudam rotineiramente os pais em tarefas online — um indicativo de que a hierarquia digital se inverte cada vez mais cedo.
Muito além do brinquedo: o que a infância conectada ensina ao mercado de conteúdo
Por que esse levantamento importa para profissionais de marketing, editores de WordPress ou produtores independentes? Primeiro, porque aponta um futuro consumidor que considera a IA tão corriqueira quanto o Wi-Fi. Pense no impacto: interfaces conversacionais passarão a ser exigência básica, e não diferencial.
Segundo, porque o declínio do acesso escolar não significa menor uso — só desloca o ponto de conexão para o smartphone pessoal e o Wi-Fi doméstico. Isso fortalece aplicativos e plataformas que optimizem a experiência mobile e funcionem bem mesmo em redes instáveis.
Terceiro, a consciência precoce sobre publicidade sugere que banners invasivos perderão efetividade ainda mais rápido. Conteúdo nativo, transparente e educativo tende a gerar confiança em uma geração que aprendeu a identificar tracking aos 11 anos.
Por fim, a inversão de papéis — filhos ensinando pais — deve orientar estratégias de UX e suporte: manuais simplificados ou vídeos curtos podem ser direcionados não apenas ao adulto responsável, mas ao “jovem tutor” da casa.
Em suma, a pesquisa TIC Kids Online Brasil 2025 não entrega apenas números sobre crianças. Ela antecipa quais padrões de uso, privacidade e consumo de mídia chegarão ao público adulto na próxima década. Ignorar esses sinais hoje é correr o risco de falar uma língua que seu futuro leitor — ou cliente — já terá superado.