O Facebook começou a liberar, nos Estados Unidos e no Canadá, uma ferramenta de colagens automáticas que vasculha seu rolo de câmera, envia as mídias para a nuvem e gera montagens “divertidas” com a ajuda de inteligência artificial. À primeira vista, o recurso promete poupar tempo de quem quer reviver uma viagem ou um aniversário sem passar horas escolhendo fotos. Mas há um detalhe que merece atenção: as imagens compartilhadas a partir dessas sugestões passam a alimentar os modelos de IA da Meta.
Para usuários comuns, criadores de conteúdo em WordPress e profissionais de marketing digital que dependem de plataformas como Google AdSense ou programas de afiliados, entender como e por que seus dados visuais são coletados é cada vez mais crucial. A disputa por público, engajamento e, claro, por datasets para treinar algoritmos coloca privacidade e monetização no mesmo tabuleiro.
Como funciona a colagem automática com IA
Depois que o usuário opta pelo novo recurso, o app do Facebook analisa automaticamente suas fotos e vídeos locais, envia os arquivos para servidores da Meta e cria montagens temáticas — aniversários, formaturas, viagens e afins. As sugestões aparecem de forma aleatória no Feed e nos Stories, sempre de forma privada até que o dono do perfil decida publicar.
Por trás do processo está um sistema de visão computacional que identifica rostos, cenários e datas para agrupar o material. Não há detalhes públicos sobre as bases de dados ou os modelos exatos usados, mas a empresa confirma que o processamento ocorre na nuvem, e não apenas no dispositivo.
Compartilhou, treinou
A Meta garante que o conteúdo do rolo de câmera não entra nos laboratórios de pesquisa, a menos que o usuário publique a criação sugerida ou edite a mídia usando as ferramentas de IA da própria empresa. Nesse momento, o material é incorporado ao gigantesco banco de dados que alimenta futuras versões do algoritmo.
Quem prefere ficar de fora precisa simplesmente não ativar a novidade. Outra barreira adicional é retirar totalmente a permissão de acesso do Facebook ao rolo de câmera, algo que pode ser feito nas configurações do iOS ou do Android.
Disponibilidade e ajustes de privacidade
No lançamento, o recurso cobre apenas os EUA e o Canadá. A adesão é opcional e fica em Configurações > Preferências > Camera Roll Sharing Suggestions. Um simples toque habilita ou desabilita o scanner de fotos.
Imagem: Juli Clover
O anúncio acompanha outra mudança relevante: em dezembro de 2025, a Meta começará a usar conversas de texto e voz com assistentes de IA para personalizar publicações, Reels e anúncios — sem possibilidade de opt-out. A sinalização confirma a estratégia de afrouxar políticas de privacidade em troca de dados que impulsionem recomendação de conteúdo e segmentação de anúncios.
Além do Efeito Nostalgia: por que a Meta quer tanto as suas fotos?
Colagens prontas são um agrado legítimo para quem gosta de compartilhar memórias sem esforço, mas o valor real do recurso está nos metadados por trás de cada imagem: localização, rostos, objetos e até marcas exibidas. Esses pontos, combinados, ajudam a treinar modelos capazes de reconhecer tendências visuais, prever interesses de consumo e ajustar anúncios com precisão cirúrgica.
Para criadores de conteúdo, a consequência indireta é um feed cada vez mais competitivo, no qual as IAs da própria plataforma editam e recomendam publicações que rivalizam com o trabalho artesanal de fotógrafos, designers e redatores. Já para profissionais de marketing, a iniciativa reforça o caminho sem volta rumo a campanhas hipersegmentadas, mas também levanta perguntas sobre transparência e consentimento dos dados usados para essa segmentação.
No fim das contas, a Meta troca conveniência por informação de alto valor. Cabe ao usuário — e aos profissionais que dependem do ecossistema digital — decidir se a praticidade de uma colagem automática compensa o custo invisível de alimentar mais uma engrenagem de coleta de dados.