Quando uma nova série nasce sob a sombra de um clássico, a primeira pergunta que o público faz é: “haverá pontes entre os dois mundos?”. The Paper, criada pelo mesmo roteirista de The Office, não fugiu a esse teste de paternidade. Em vez de esconder o passado, a produção decidiu assumir o legado e encheu sua primeira temporada de piscadelas ao escritório mais querido da TV.
Para quem é fã, identificar cada objeto, frase ou participação especial vira quase um minijogo dentro do episódio. Mas esses easter eggs não estão ali apenas para agradar nostalgicamente; eles funcionam como comentários sobre mudanças de mercado, sobre a forma de fazer comédia no streaming e até sobre o poder de uma comunidade de fãs em 2025. A seguir, destrinchamos as oito referências mais evidentes — e o que cada uma delas realmente significa.
1. Visita ao Scranton Business Park e o fim da Dunder Mifflin
A sequência de abertura mostra o documentarista retornando ao velho Business Park de Scranton. Descobrimos que, em 2019, a Dunder Mifflin foi comprada pela Enervate e deixou de operar de forma independente; hoje, o prédio abriga uma empresa de lasers. É a forma oficial de declarar que os universos são compartilhados, mas que The Paper seguirá nova rota.
2. Cameo de Bob Vance, o rei da refrigeração
Logo nesse retorno a Scranton, a câmera encontra Bob Vance (da Vance Refrigeration). Ele atualiza o espectador sobre a esposa Phyllis e o amigo Stanley, reforçando que alguns laços pessoais permanecem, apesar do fim da antiga empresa de papel.
3. A caixa da Dunder Mifflin escondida na mesa de Oscar
Durante o discurso motivacional do novo editor-chefe, uma caixa com o logo da Dunder Mifflin aparece ao fundo na mesa de Oscar. O item é discreto, mas funciona como relíquia física de um mundo que agora vive só na lembrança — um detalhe que recompensa fãs atentos.
4. O retorno de Oscar Martinez, agora como chefe de contabilidade
Oscar Núñez reprisa seu papel icônico, mas desta vez no jornal fictício The Truth Teller. Ele resiste à presença da equipe de filmagem, dizendo não ter assinado novo acordo. O diálogo conecta seu desconforto antigo com câmeras ao novo ambiente de trabalho.
5. Sudoku de amigo para amigo: recado a Stanley Hudson
No segundo episódio, surge um Sudoku anônimo sobre a mesa de Ned. Depois descobrimos que Oscar o criou e perguntou a Stanley se o quebra-cabeça estava difícil demais. A referência é direta ao amor de Stanley por palavras cruzadas em The Office.
6. “PTSD de um antigo chefe”: uma cutucada em Michael Scott
Mais adiante, Ned tenta convencer Oscar a criar mais Sudokus, ouvindo de volta que chamar trabalho de “divertido” traz “PTSD de um antigo chefe”. É uma lembrança sutil do ambiente às vezes tóxico criado por Michael Scott — a piada funciona mesmo para quem não viveu essa era.
7. “You miss 100% of the shots you don’t take” volta à tela
No episódio final, Oscar cita o célebre conselho motivacional que Michael Scott atribuiu a si mesmo (mas originalmente veio de Wayne Gretzky). A piada eterniza um meme da série original, agora recontextualizado como sabedoria editorial.
Imagem: Internet
8. “Head boring” e a resistência aos holofotes
Ao apresentar Oscar ao time documental, Esmeralda o chama de “head boring”, brincando com o estereótipo do contador metódico. Ele reage dizendo que não aprovou ser filmado novamente, ecoando suas reclamações constantes em The Office.
Além da nostalgia: por que esses Easter Eggs importam para o streaming e para quem cria conteúdo?
Aparentemente, estamos apenas diante de piadas internas, mas há mais em jogo. Cada referência serve como alicerce narrativo para três movimentos de mercado:
1. Engajar comunidades já formadas. Em tempos de excesso de oferta no streaming, ativar fãs pré-existentes reduz o custo de aquisição de audiência. A lembrança de Scranton e da Dunder Mifflin dá a The Paper um ponto de partida que muitos lançamentos não têm.
2. Construir continuidade sem depender de reboot. Ao mostrar que a Dunder Mifflin foi comprada e fechada, a série sinaliza fim definitivo, evitando clonar a trama original. É a lição de que spin-offs não precisam ser reboots; podem ser extensões que respeitam o passado enquanto testam novos formatos de humor.
3. Capitalizar a “economia da referência”. Para criadores de conteúdo, cada easter egg vira matéria, vídeo, thread em rede social e até dossiês como este. Plataformas de anúncios e afiliados se beneficiam: quanto mais o público busca explicações, mais inventário existe para monetização contextual.
Em síntese, The Paper usa a nostalgia como ferramenta estratégica, não como muleta criativa. Ao mesmo tempo em que reconhece o legado de The Office, a série mostra ao mercado que a melhor forma de avançar é dialogar com o passado — e não repeti-lo. É a prova de que, numa era de fandoms hiperconectados, a linha entre conteúdo e conversa ficou definitivamente borrada.