Super-heróis costumam ser vistos como produtos escapistas, mas The Boys e seu derivado Gen V preferem chacoalhar o público com versões corrompidas de figuras que todos já conhecem. Para quem trabalha com storytelling, marketing de conteúdo ou simplesmente depende de engajamento em plataforma digital, entender o “alvo” que essas séries escolhem satirizar ajuda a explicar por que elas geram tanto burburinho — e, claro, cliques.
Enquanto os quadrinhos originais de Garth Ennis e Darick Robertson miravam nos clichês do gênero sem apontar o dedo para pessoas específicas, a adaptação da Amazon Prime Video resolveu nomear, com todas as letras, a inspiração de alguns personagens. O efeito colateral? Mais relevância nas redes e nos mecanismos de busca, além de uma discussão acalorada sobre até onde a ficção pode — ou deve — espelhar a realidade.
Neste artigo, separamos o que é fato confirmado pelos próprios criadores e analisamos por que esse tipo de referência direta pode alterar a forma como se consome cultura pop (e se faz marketing) em tempos de polarização.
Quadrinhos: um ataque aos clichês, não às pessoas
No papel, The Boys nasceu em 2006 com um objetivo declarado por seus autores: desconstruir o mito do herói. Garth Ennis e Darick Robertson disseram, em entrevista ao site Retrofuturista, que nunca pensaram em parodiar indivíduos reais.
• O Capitão Pátria funciona como caricatura de um arquétipo — o líder patriótico, branco e moralmente “impecável” popularizado por Superman e Capitão América.
• Elementos sinistros como niilismo, corrupção e interesses corporativos foram inseridos justamente para mostrar que poder não conserta caráter.
• Segundo Robertson, a série de HQs via super-heróis como instrumentos históricos de propaganda: nacionalismo, agendas sociais e estratégias de marketing já orbitavam essas figuras muito antes da TV adaptá-las.
Prime Video: quando a sátira ganha RG e CPF
Erik Kripke, showrunner da adaptação televisiva, adotou outro caminho. Em entrevista à Rolling Stone (2022), ele reconheceu que o Capitão Pátria da série traz uma analogia direta a Donald Trump.
• Para Kripke, o personagem mistura “fragilidade e ambição desmedida” — combinação que o roteirista enxerga no ex-presidente norte-americano.
• Em março de 2025, Kripke revelou que Firecracker, personagem introduzida na quarta temporada de The Boys, se inspira abertamente em Marjorie Taylor Greene, deputada da ala mais à direita do Partido Republicano.
• A congressista é conhecida por defender teorias da conspiração e imitar o estilo de Trump, elementos transportados quase que literalmente para a tela.
A opção de escancarar a referência faz com que cada nova temporada seja avaliada não apenas como ficção, mas como comentário político em tempo real. Esse movimento tende a ampliar tanto o alcance orgânico (gente buscando pelo tema) quanto o risco de backlash.
Imagem: Internet
Narrativas que cutucam feridas: por que importa para quem cria (ou vende) ideias?
Ao trocar arquétipos genéricos por figuras políticas nomeadas, The Boys encurta a distância entre entretenimento e manchete de jornal — um prato cheio para discussões no X/Twitter, Reels e Threads.
Para criadores de conteúdo, há aprendizados claros:
1. Personificação gera mais engajamento: quando o público reconhece o “alvo”, a conexão emocional (positiva ou negativa) dispara, elevando o tempo de retenção e a chance de viralização.
2. Satirizar é também escolher um lado: ao apontar para Trump ou Greene, Kripke assume uma posição pública. Marcas e publishers que ecoam essa narrativa precisam calcular o brand safety — ganhar atenção pode custar anunciante.
3. Conteúdo como leitura de cenário: séries de streaming funcionam como termômetro cultural. Saber decodificar essas referências ajuda profissionais de marketing a entender sobre o que (e como) as pessoas estão dispostas a conversar.
No fim das contas, The Boys e Gen V lembram que a linha entre cultura pop e política nunca foi tão fina — e que, em 2025, até um super-herói fictício pode ensinar muito sobre a arte de contar histórias (ou vender ideias) em um mundo hiperpolarizado.