Quando o governo chinês diz que um aplicativo está “danificando a ecologia da internet”, vale parar o que estiver fazendo e prestar atenção. Foi exatamente essa a acusação direcionada ao Xiaohongshu — ou RedNote, nome usado fora da China —, uma rede social que mistura posts de vídeo curto, e-commerce e influenciadores de lifestyle. A punição, anunciada pela Administração do Ciberespaço da China (CAC), expõe um esforço cada vez mais agressivo de Pequim para filtrar o que considera “fútil” ou “negativo” na web.
Se você cria conteúdo, trabalha com marketing digital ou simplesmente quer entender as forças por trás das plataformas que usa diariamente, este caso oferece pistas valiosas. Ele mostra como Estados e empresas brigam pelos holofotes dos algoritmos e, principalmente, pelo controle da narrativa em escala massiva.
O que motivou a punição
A CAC concluiu que o RedNote deixava ganhar destaque, em sua área de assuntos em alta, posts considerados “triviais” — fofocas de celebridades, desafios virais e discussões sem profundidade —, além de conteúdos rotulados como “negativos”. Para o órgão, essa combinação compromete a “ecologia” do espaço digital chinês, expressão usada para indicar um ambiente on-line supostamente saudável, produtivo e alinhado a valores oficiais.
A resposta da plataforma
Em comunicado publicado dentro do próprio aplicativo, o Xiaohongshu confirmou ter sido convocado pelas autoridades e disse ter recebido uma penalidade — cujo valor ou natureza não foi revelado. A empresa afirmou ter “aprendido lições profundas” e anunciou a criação de um grupo de trabalho para reformular a aba de tópicos em alta, tentando evitar reincidências.
Contexto: campanha por proteção a menores e “internet saudável”
Desde julho, o governo chinês conduz uma campanha nacional para reforçar a segurança de menores on-line e, ao mesmo tempo, cultivar um ambiente digital que promova conteúdos tidos como “construtivos”. O Global Times, jornal alinhado ao Partido Comunista, vem noticiando batidas regulatórias em sequência, mirando tanto conteúdo explícito quanto temas classificados como “exageradamente sensacionalistas”.
Por que o Xiaohongshu é visto como o “Instagram chinês”
Diferente de redes como Weibo e Douyin (versão local do TikTok), o RedNote ganhou fama por ser relativamente apolítico. O foco está em viagens, maquiagem, gastronomia e discussões lifestyle — daí o apelido de “Instagram chinês”. A plataforma oferece ainda uma página Explorar com recomendações algorítmicas e um marketplace parecido com o TikTok Shop, onde é possível comprar roupas, acessórios e itens de beleza.
Imagem: Philip Jägenstedt
Essa característica também fez o app virar refúgio temporário nos Estados Unidos, em janeiro de 2025, quando o possível banimento do TikTok levou usuários a buscar alternativas. Mesmo em território chinês, o Xiaohongshu costuma exibir debates sobre temas sensíveis, como direitos LGBTQIA+ e igualdade de gênero, que sofrem censura mais rígida em outras redes.
Análise de impacto: “E daí?”
O movimento contra o RedNote reforça um recado claro: na China, quem domina o feed precisa alinhar sua curadoria aos objetivos do Estado. Para criadores e marcas, isso significa que o algoritmo pode mudar do dia para a noite, rebaixando conteúdos antes considerados inofensivos. Estratégias focadas apenas em lifestyle ou entretenimento leve correm risco constante de esbarrar em limites cada vez menos previsíveis.
Em escala global, o episódio alimenta um debate maior: quem define o que é “conteúdo de qualidade”? Se governos endurecem o controle, plataformas em outros países podem sofrer pressões semelhantes, seja por motivos morais, políticos ou econômicos. Para o usuário comum, o resultado pode ser um feed mais filtrado e, paradoxalmente, menos espontâneo. Já para o mercado, fica o alerta de que depender de um único canal — especialmente em ambientes regulatórios voláteis — é uma aposta cada vez mais arriscada.