Primeiro foram as restrições de exportação dos Estados Unidos; agora é Pequim quem coloca a Nvidia sob holofotes. O órgão chinês que vigia a concorrência concluiu que a fabricante norte-americana pode ter quebrado a lei antimonopólio do país, justamente no momento em que Washington e Pequim trocam farpas sobre tarifas e acesso a semicondutores de inteligência artificial.
Para quem acompanha o mercado de tecnologia — seja desenvolvendo modelos de IA, gerenciando data centers ou apenas atento às ações das big techs — esse embate define quem terá poder de fogo no futuro próximo. Entender por que a China decidiu apertar o cerco agora ajuda a decifrar o tabuleiro geopolítico dos chips.
De onde veio a investigação
A Administração Estatal para Regulação do Mercado (SAMR) abriu o processo em dezembro de 2024. O alvo era verificar se a Nvidia honrava compromissos firmados em 2020, na época da compra da israelense Mellanox Technologies — empresa famosa por projetar componentes de alto desempenho para data centers.
Um dos termos aprovados pelos reguladores chineses dizia que a Nvidia continuaria fornecendo GPUs ao mercado local. Só que, em paralelo, o governo norte-americano passou a bloquear a exportação dos aceleradores mais avançados, numa tentativa de impedir que a China reduzisse a distância em IA.
Acusação formal, mas investigação segue aberta
Segundo despacho preliminar divulgado pela SAMR, há indícios de violação da lei antimonopólio chinesa. O procedimento, entretanto, não terminou: o órgão sinalizou que seguirá coletando informações antes de bater o martelo.
Se for considerada culpada, a Nvidia pode receber multa de até 10% das vendas que realizou no ano fiscal anterior. Para efeito de cálculo, apenas o mercado chinês rendeu à companhia cerca de US$ 17 bilhões até 26 de janeiro de 2025.
Um histórico de empurra-empurra regulatório
A pressão sobre a Nvidia vem de todos os lados. Em abril de 2025, o governo Donald Trump proibiu totalmente a venda de GPUs de ponta ao país asiático. Depois de intensas negociações — que contaram com a atuação direta do CEO Jensen Huang — Washington permitiu retomada parcial, porém cobrando taxa de 15% sobre a receita gerada.
Imagem: Vitor Pádua
Na mesma semana em que a China divulgou a acusação, os Estados Unidos colocaram duas empresas chinesas numa lista de restrições por repassarem equipamentos a outra gigante de semicondutores, a SMIC. Analistas interpretam o movimento de Pequim contra a Nvidia como resposta na mesma moeda e tentativa de ganhar fôlego nas conversas bilaterais.
Análise de Impacto: por que isso mexe com todo mundo?
Se a multa chegar perto do teto, a penalidade pode ultrapassar a casa de US$ 1,7 bilhão — valor que, sozinho, não quebra a Nvidia, mas pressiona sua operação num mercado que ainda responde por cerca de um quinto da receita global da empresa. Qualquer recuo na oferta de GPUs acelera a busca de gigantes chinesas por soluções nacionais, encurtando o tempo para que competidores locais, como Huawei e Alibaba, ganhem relevância em IA.
Do lado ocidental, a ofensiva chinesa serve de alerta a outras companhias de hardware: cumprir exigências de dois governos com agendas conflitantes ficou praticamente impossível. Isso tende a fragmentar ainda mais cadeias de suprimento: versões “capadas” de chips para a China, linhas premium restritas ao Ocidente e, possivelmente, novas barreiras tecnológicas transoceânicas.
Em última análise, desenvolvedores de IA e empresas que dependem de poder de processamento podem sentir no bolso. Restrição de oferta significa filas maiores e custo de aluguel de GPU mais alto na nuvem. Caso a tensão escale, o ritmo de inovação — de modelos de linguagem a carros autônomos — pode desacelerar, afetando muito além das fronteiras de Estados Unidos e China.